Por Carolina Gabardo Belo

A engenheira Andrea Bucci, 23, não tem dúvida. Se tiver que ir à cidade de São Paulo de ônibus, prefere não ir. Ela, que durante a semana mora e trabalha em Campinas (SP), mantém até hoje um hábito que começou na época da faculdade e que deixa suas viagens muito mais agradáveis: as caronas.

Tudo começou há quatro anos, quando decidiu trocar as longas viagens de ônibus pela companhia dos amigos. Antes, o trajeto de aproximadamente cem quilômetros até sua casa na capital paulista durava três horas. Com as caronas, passou a fazer o mesmo caminho na metade do tempo e com metade do dinheiro gasto em passagens.

A opção surgiu após um desabafo na sala de aula. “Comentei que tinha preguiça de ir pra São Paulo todo fim de semana, pois levava aproximadamente três horas até minha casa. Um colega respondeu que algumas pessoas da turma tinham carro e viajavam todo final de semana para lá”, lembra. Para garantir sua vaga em um dos carros que seguiam à capital, Andrea deixou a vergonha de lado. “Foi na cara de pau mesmo. Liguei e falei ‘fulano disse que você volta de carro pra Campinas. Onde você encontra o pessoal, como funciona?’. Comecei com a carona por preguiça de viajar de ônibus mesmo”, confessa.

Fernando dá carona para a namorada Mariana e para os amigos Andrea e Hugo

A partir de então a engenheira começou com uma rotina que até hoje segue religiosamente, mesmo depois de formada. Às quartas-feiras já entra em contato com os caronistas para combinar a ida. Os viajantes seguem para São Paulo às sextas, quando combinam a viagem de volta, sempre aos domingos. Geralmente os caronistas pegam seus passageiros na porta de casa e deixam em pontos próximos a ônibus e metrôs.

A experiência de cinco anos de caronas fez com que Andrea prestasse atenção a detalhes muito importantes em uma viagem. “Eu não gosto de pegar caronas com desconhecidos, por não saber se são cuidadosos na direção, se ultrapassam os limites de velocidade. Uma vez peguei carona com um rapaz que olhava mais para as pessoas com quem conversava do que para frente. A rodovia estava tranquila naquele dia, mas mesmo assim não era a atitude mais segura da parte dele”, conta.

Contando “por cima”, Andrea estima que já pegou 300 caronas, com aproximadamente 800 pessoas. Algumas se tornaram grandes amigos da engenheira. “A viagem fica muito mais divertida conversando no carro do que ouvindo música no ônibus. Além disso, saber que há apenas um carro circulando ao invés de cinco é muito bom, principalmente para quem mora em São Paulo e tem pavor daquele trânsito”.

Entre os amigos que Andrea fez nas caronas está o desenvolvedor de sistemas Fernando Iodice, 24. Ele começou a oferecer caronas em 2004, com o objetivo de reduzir os custos do combustível consumido pelo carro que transportava apenas uma pessoa. Na época, o carro de Fernando gastava 60 reais em gasolina para a ida e a volta. Este valor foi facilmente suprimido com a cobrança de 8 reais de cada passageiro por trajeto.

Fernando e a namorada Mariana

Economia, novos amigos, contato com estudantes de outros cursos e pessoas que não teria a oportunidade de conhecer. Estes foram alguns dos ganhos de Fernando com a oferta de caronas. Mas ele conta com alegria sua principal conquista: “Minha namorada!”

Estudantes do mesmo colégio no ensino fundamental em São Paulo, Fernando e Mariana só tiveram a primeira conversa quando estavam na faculdade, em uma das caronas oferecidas pelo rapaz. Interessado na moça, Fernando criou uma tática especial para conquistá-la. Mariana, que é estudante de Medicina, passou a ser a primeira passageira a ser apanhada. Assim ficava garantido que ela iria sentada no banco da frente e que teriam alguns minutos de conversas a dois. “Após mais ou menos um mês da primeira carona, chegando a Campinas no domingo à noite deixei para ir à casa dela por último. Então perguntei se ela não queria jantar, porque estava morrendo de fome. Foi então que saímos e começamos a namorar”, lembra.

Para Fernando, todos ganham com as caronas. “Pra quem pega carona é economia de tempo, de dinheiro e de trabalho também porque até pegar o ônibus na rodoviária é muito trabalhoso. Tem gente que entra no meu carro e logo dorme, parece que não quer conversa, mas em outras vezes a carona é mega animada com a gente rindo até São Paulo. E na minha opinião, é a conversa que faz a viagem ficar mais legal”.

Alunos e caroneiros: já são mais de 5 mil

Em 2007, as caronas de Andrea, Fernando e outros tantos estudantes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ganharam um novo aliado. Em abril daquele ano entrou no ar o site Caronas Unicamp, que reuniu todas as procuras e ofertas de caronas que partiam da cidade a várias regiões do Brasil.

Guilherme e Matheus criaram o site Caronas Unicamp

O projeto surgiu como uma sistematização das caronas, combinadas boca a boca entre os universitários, por grupo de e-mails ou em sites de relacionamento. Os então acadêmicos de Engenharia da Computação, Guilherme Valente de Souza, 23, e Matheus Paiva Marosti, 24, aproveitaram os conteúdos sobre sistemas web que estavam aprendendo e desenvolveram um que melhorasse a maneira com que as caronas eram agendadas.

Em pouco tempo a ideia conquistou os universitários. O projeto cresceu e hoje tem cadastrados mais de mil usuários, que partem para quase 60 diferentes destinos a cada final de semana. São viagens para municípios de São Paulo, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro. O trajeto mais concorrido e movimentado é o Campinas-São Paulo, por onde seguem cerca de cem caronas semanais.

O site conta com um sistema completo, que garante segurança a todos os usuários, caronistas ou caroneiros. A ferramenta permite que sejam selecionadas as caronas oferecidas e as procuradas, e a inscrição de recomendações sobre as pessoas cadastradas no site. Oferece ainda caronas para percursos dentro de uma mesma cidade e também a previsão do tempo nos destinos.

Os agora engenheiros não moram mais em Campinas e mesmo assim continuam com a administração do site, mas lamentam a falta de apoio financeiro para ajudar a cobrir os custos mensais, de 300 reais. “O projeto, até o momento, não tem nos dado retorno financeiro, pois não conseguimos patrocinadores para auxiliar nos custos do site, que é totalmente sustentado por nós dois. Acreditamos que as empresas criariam uma boa imagem apoiando projetos que fazem bem para o meio ambiente”, analisam. “Porém, em termos de sustentabilidade, meio ambiente e qualidade de vida, só temos o que comemorar. Para as pessoas que iriam viajar sozinhas de carro, a carona acaba sendo mais barata, pois os gastos são divididos entre todos no veículo. Para as pessoas que iriam de ônibus, também acaba sendo bom, por questões de tempo e financeiras. Para o meio ambiente, é uma ajuda considerável, pois ao invés de cinco carros irem pra estrada, irá apenas um, reduzindo trânsito e poluição”.

Alguém sempre vai para o mesmo lado

Estudos mostram que a maioria das pessoas que utilizam o carro para trabalhar mora a até dez quilômetros do trabalho. Isto significa que colegas partem de pontos próximos e se deslocam a um mesmo destino em trajetos considerados curtos. Está aí uma boa oportunidade de fazer novas amizades, conhecer melhor seu colega e ainda economizar os gastos com transporte.

Os projetos de carona corporativa, direcionados a universidades ou empresas, são considerados os mais eficazes. Isto porque garantem a efetivação das caronas, dão segurança aos usuários e permitem ainda que as corporações reduzam seus gastos a partir da implantação de uma política de deslocamento sustentável em toda a empresa.

No entanto, em diversas situações as iniciativas corporativas esbarram em problemas de integração dos funcionários, falta de estrutura para o projeto ou, então, ausência de monitoramento. “As empresas não participam de projetos como esse se não percebem os benefícios que irão ter. Além disso, o Brasil tem aquela cultura de amor pelo carro, as políticas públicas são centradas nesta área. Não somos contra os carros e o desenvolvimento das cidades, mas o problema é como os carros são utilizados. Por que preciso dele o dia todo, o tempo todo?”, questiona o idealizador do Projeto MelhorAr de Mobilidade Sustentável, Lincoln Paiva.

Superados esses impasses, os bons resultados não demoram a aparecer. As caronas entre os colaboradores, a criação de estacionamentos para bicicletas e o controle da utilização de automóveis para visitas a clientes, entregas de documentos ou deslocamentos, por exemplo, evitam gastos desnecessários, o consumo excessivo de combustível e também beneficiam a comunidade como um todo.

Mesmo com iniciativas de sucesso espalhadas por todo o Brasil, o desenvolvimento de projetos de mobilidade sustentável ainda pode melhorar. A participação do poder público nessa área ainda é tímida. “As empresas já incentivam seus funcionários, mas o poder público ainda tem muito o que colaborar. Os países da Europa estão dez anos à nossa frente, mas os resultados aqui no Brasil são muito satisfatórios”, analisa o sócio-fundador do Carona Brasil , Edgard Azzam. “Quando o governo trabalha com as empresas, fica muito mais eficaz e toda a cidade começa a ganhar. Isso serve tanto aos transportes públicos quanto para os meios alternativos”, complementa Edgard.

Em Minas Gerais, o poder público já começou a investir na mobilidade sustentável. A partir de dezembro deste ano entra em vigor o projeto de carona corporativa entre os servidores estaduais que trabalham em Belo Horizonte. O projeto ganhou força com a mudança da sede das secretarias de Estado para uma área afastada do centro da capital mineira. A nova sede vai reunir 18 mil servidores, que poderão participar do projeto.

Até dezembro, funcionários do Sistema Estadual do Meio Ambiente e da Secretaria Estadual de Planejamento e Gestão participam do projeto piloto. A proposta é dar benefícios aos servidores que aderirem ao programa. Até a mudança para a nova sede, serão disponibilizadas vagas de estacionamento aos motoristas que oferecerem caronas aos colegas. No centro de Belo Horizonte, os custos com estacionamento podem chegar a 200 reais por mês.

“Observamos o projeto em dois aspectos: pela sustentabilidade ambiental, a diminuição dos carros nas ruas e da emissão de poluentes e também pelo aspecto interno, com a internalização do conceito, a oportunidade do servidor fazer novas amizades, de uma convivência mais sadia no trabalho. A gente esquece que no dia-a-dia podemos contribuir para melhorar a qualidade ambiental”, explica o subsecretário de inovação e logística do Sistema Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais, Thiago Grego.

Se em sua escola ou empresa ainda não foi implementado um projeto de caronas, não se preocupe. Você pode sugerir a criação de um programa na área ou ainda realizar suas caronas de forma independente. Se nenhum conhecido seu realiza o mesmo trajeto que você, a opção pode ser o cadastro em sites de caronas individuais.

É o caso do site Carona Brasil, que além de soluções corporativas oferece um sistema para busca de caronas individuais. No ar desde janeiro deste ano, são mais de dois mil cadastros, com 40% de usuários do sexo feminino e a maioria dos participantes com idades entre 18 e 35 anos. A procura e a oferta de caronas do site abrangem os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e região Nordeste.

Na ponta do lápis

Com mais pessoas ocupando um mesmo veículo, menos carros circulam pelas ruas, o que diminui os congestionamentos e deixa os trajetos mais rápidos, evitando assim maior desgaste dos veículos e o stress dos motoristas e passageiros. Além disso, menos poluentes são emitidos na atmosfera.

Nos trajetos entre Campinas e São Paulo, por exemplo, a opção pelas caronas é garantia de economia. 23 reais é o valor gasto com a passagem para São Paulo, incluindo as tarifas de transporte coletivo utilizadas para chegar à rodoviária e em casa.

O trajeto é de cem quilômetros, que em um carro de médio porte movido à gasolina gera a emissão de 0,19 tonelada de CO2. Para percorrer a ida e a volta, o motorista gasta em média 60 reais em combustível.

Em uma carona, cada passageiro gasta em média 8 reais para percorrer os cem quilômetros entre as duas cidades. Com o carro cheio (cinco pessoas), é mantida a emissão de 0,19 tonelada de CO2, provocada por apenas um veículo.

Se as cinco pessoas deixassem as caronas de lado e utilizassem veículos diferentes para realizarem apenas o trajeto de ida, a emissão de CO2 passaria para 0,95 tonelada. Em um mês, este índice chegaria a 3,85 toneladas de CO2. Quer