Por Carolina Gomes

Conhece aquela fábula do fazendeiro que acordou com sua galinha botando ovos de ouro? Pois é mais ou menos assim que se sentiu a agricultora paranaense Célia Ripka quando conseguiu a certificação para produção de ovos orgânicos.

A manhã do dia 4 de junho de 2009 foi de festa na pequena localidade de Areia Branca dos Assis, em Mandirituba, cidade da Região Metropolitana de Curitiba, a pouco mais de 40 quilômetros da capital. Prefeito, vice-prefeita, representantes da Secretaria Estadual da Agricultura, da Emater, do Banco do Brasil. Todos querendo aparecer na foto da inauguração da primeira unidade de classificação e beneficiamento de ovos produzidos de forma orgânica da região.

Produtora Célia Ripka em feira de orgânicos em Curitiba (Foto: Carolina Gomes)

Hoje dúzias de ovos são a representação da esperança para a família de Célia. “Estamos surpresos com a aceitação. São poucos meses no mercado e já não estamos dando conta dos pedidos”, conta a agricultora. No começo eram 500 galinhas. Em setembro outras mil chegaram para aumentar a produção. A agricultora de 46 anos, o marido Antonio Osvaldo, de 52, o genro, o filho e um funcionário trabalham todos os dias na criação das aves e no plantio de verduras e morangos orgânicos. A produção tirada da propriedade de dois alqueires é a única fonte de renda de todos os envolvidos. A família vende seus produtos em três feiras e também entrega em casa para alguns clientes. “Fico orgulhosa de poder tirar o sustento da minha família de um pequeno pedaço de terra”, emociona-se Célia.

Mas, diferente da fábula, para a agricultora paranaense nada aconteceu da noite para o dia. Célia começou a trabalhar com produtos orgânicos com a antiga patroa, há quase 15 anos. A patroa desistiu do negócio e Célia arrendou a área. Sete anos depois, ela e o marido conseguiram comprar o terreno. Naquela época criavam apenas galinhas caipiras. Mas como a venda de ovos caipiras não é permitida nas feiras de orgânicos que Célia frequentava, ela decidiu se desfazer das aves. Um ano depois, incentivada por funcionários da prefeitura que sabiam da procura por ovos orgânicos, Célia iniciou o projeto para instalar a estrutura necessária. “Não foi nada fácil. Quem quer entrar em qualquer setor de orgânicos precisa ter paciência. As exigências são muitas”, conta.

Para colocar o projeto em prática, Célia emprestou 20 mil reais do Banco do Brasil e pegou outros 20 mil que tinha de economia. Depois da certificação, cada caixa de ovo é vendida a 6 reais, com uma margem de lucro de cerca de 30%. “Enquanto a certificação não saía tive que vender várias dúzias a 2 reais, porque pelo menos assim o prejuízo não era tão grande. Além de tudo, mesmo depois da certificação, eu levei um tempo até recuperar minha clientela”, diz Célia. Mas não dá para reclamar. Passado o período mais difícil, Célia já chegou a vender 150 dúzias em um único dia. E a ideia é investir cada vez mais na criação das galinhas.

Natureza e homens como aliados
A cerca de 600 quilômetros dali, três jovens engenheiros agrônomos, formados pela Universidade de São Paulo (USP), comprovam que a estratégia de Célia é certeira. Em 2006, Jacqueline Araujo, Rogério Sakai e Samuel Telhado fundaram em Piracicaba (SP) a empresa Sabor e Cor. Desde então, eles vêm aumentando continuamente sua produção. Hoje oferecem ovos orgânicos em caixas com seis, dez e 30 unidades que são distribuídos para restaurantes, hotéis e pequenos mercados do território paulista. Samuel Telhado conta que o início é realmente muito difícil. Tanto é que, passados três anos, ainda estão recuperando o investimento que fizeram ao longo do tempo. “Mesmo com todas as dificuldades, já podemos dizer que é uma boa alternativa econômica. É viável e protege não só a natureza mas também a saúde do produtor”, explica.

A viabilidade econômica do sistema orgânico de criação de galinhas foi comprovada pela pesquisadora Isis Mariana Pasian, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. “Como a demanda é muito grande, ainda não é possível abandonar o sistema tradicional de produção de ovos. Mas os sistemas alternativos vêm atendendo nichos crescentes de mercado”, explica Isis.

Outra diferença entre a fábula e a vida real. Ao contrário do fazendeiro do conto – que matou a galinha querendo pegar de uma vez todo o ouro que a ave botaria – a agricultora paranaense e os produtores paulistas sabem muito bem que o sucesso deles depende da felicidade de suas galinhas.

Galinhas mais felizes botam ovos mais saudáveis
A questão do preço é uma das mais lembradas quando se fala em orgânicos. Isis diz que não há como negar que os produtos orgânicos são mesmo mais “salgados”. No caso dos ovos, de acordo com Isis, pode-se dizer que se o convencional custa X, o caipira custará 2X e o orgânico 3X. “O problema é que a grande maioria dos consumidores não sabe as diferenças entre os sistemas de produção e por isso não compreende porque o ovo orgânico é três vezes mais caro que o convencional. Enquanto ele não conhecer as diferenças e valorizá-las, ele não pagará mais por esse produto”, reconhece. O produtor Samuel Telhado concorda. “Afirma-se que o preço é caro e que por isso o consumo é menor. Mas será que poderemos continuar poluindo as águas e o ar sem custo? Será que a limpeza desses recursos não nos custará nada? São estes custos que não são incluídos no produto convencional, que o fazem aparentemente barato”, defende Samuel.

Isis acredita que a maior barreira enfrentada pelos produtores de orgânicos é a falta de informação do consumidor. “As pessoas estão muito distantes do processo produtivo dos alimentos de origem animal. Ovos, leite e carne vêm de animais e muitas vezes o consumidor parece esquecer disso. Um dos grandes diferenciais da criação orgânica é a extrema importância que é dada ao bem-estar dos animais”, garante Isis.

De acordo com a pesquisadora, no sistema tradicional as aves ficam confinadas em gaiolas suspensas, podem apresentar problemas nas patas por pisarem apenas nas grades das gaiolas, dificilmente tomam sol e têm um espaço de movimentação equivalente a uma folha de papel sulfite. Os animais podem receber antibióticos e pigmentantes sintéticos na ração. Segundo Isis, o consumidor também desconhece que no sistema tradicional existe um procedimento chamado de debicagem, em que uma porção do bico da ave é cortada. “Isso gera estresse, dor e dificulta comportamentos naturais do animal como a autolimpeza e a seletividade do alimento”, explica.

No sistema orgânico, as aves são criadas no piso, a ração deve ser comprovadamente orgânica, no máximo seis animais por metro quadrado na área coberta e seis metros quadrados para cada ave na área de pastagem. É assim na chácara da agricultora Célia Pipka. “As aves só entram no galpão para comer e dormir”, conta ela. Além disso, a debicagem, o uso de antibióticos, de promotores de crescimento e de pigmentantes sintéticos são proibidos. As galinhas são tratadas apenas com homeopatia e a presença do galo é permitida.