Por Carolina Gabardo Belo

Mesmo no alto do quinto andar do prédio onde mora, em Porto Alegre (RS), Marilene Pitres Sales, 53, considera-se moradora de uma casa. Isto porque o terraço de seu apartamento deixou de ser tomado pelo concreto e ganhou uma nova cobertura: a grama.

Agrônoma e envolvida em projetos de sustentabilidade, Marilene não pensou duas vezes antes de fazer o investimento. Ela aproveitou as obras para consertar problemas de infiltração em seu apartamento e transformou o terraço em uma cobertura “verde”. Em um mês, todo o projeto já estava pronto. A área de 70 metros quadrados com piscina tornou-se uma espécie de jardim e chamou a atenção dos vizinhos. Alguns chegaram a fazer pesquisas na internet para saber o que era a novidade e, quem sabe, copiar a ideia.

Terraço do apartamento de Marilene em Porto Alegre (RS)

O novo espaço cativou também os convidados de Marilene para festas realizadas no local e principalmente seu cachorro, que é quem mais aproveita a área para brincar. “Juntei as duas coisas e foi bem interessante. Ganhei uma área verde a mais”, conta a dona da casa que se distrai com a manutenção da área, o que, de acordo com ela, faz com muito gosto. “Eu gosto destas atividades, por isso não me incomodo em fazer a manutenção”, conta.

Em discussão na arquitetura desde a década de 50, o telhado verde é considerado um dos principais elementos da chamada arquitetura passiva. A construção de áreas verdes ganhou mais evidência com a fase modernista, focada na sustentabilidade e em soluções ambientais. Este viés da arquitetura chama-se passivo por usar seus próprios recursos a favor do meio ambiente, como por exemplo a posição de janelas e criação de aberturas para ventilação, que reduzem o consumo de energia.

Além de gramados, os telhados verdes podem ser compostos por arbustos e até mesmo hortas produtivas, em espaços muitas vezes considerados inúteis. Do ponto de vista da construção, o principal benefício dos telhados verdes é o conforto térmico que promove na casa. Este conforto térmico ocorre em todas as estações do ano, pois protege a construção da incidência direta do sol, deixando assim a temperatura interna adequada. Nos espaços sem a cobertura verde, o calor fica armazenado na estrutura de concreto ou nas telhas e é transmitido para toda a residência.

Com a adequação da temperatura nos ambientes internos, a estrutura das construções também é beneficiada. Os elementos que compõem a casa “trabalham” menos e reduzem a necessidade de manutenções. Este “trabalho” dos elementos causa situações de trinca, por exemplo.

Desde o final do ano passado com a nova cobertura, Marilene já percebeu melhorias na climatização de sua casa. Mesmo com o alto custo de aplicação da estrutura, ela ressalta outros benefícios que ganhou com a iniciativa. “Tem um ganho que a gente não mede, não tem como contabilizar e não volta só pra mim. Aquela era uma área muito grande sem vegetação e mesmo se eu colocasse vasos, não teria o mesmo benefício que tenho com a grama”, afirma a agrônoma que recomenda a colocação de telhados verdes em residências. “Temos que começar a nos preocupar com a sustentabilidade. Não precisa ser bastante área verde, mas mesmo assim será mais do que apenas alguns vasos. Vai ser grama e o telhado não será mais uma área que não se usa”.

Jardim suspenso: alface, rúcula e jiló
Nas atividades práticas das aulas de Ciências e Biologia, estudantes de Curitiba (PR) colocam a mão na massa. Durante as visitas ao Emater (Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural), alunos do ensino fundamental conhecem a dinâmica do solo, observam de perto pequenos animais, recebem informações sobre a fotossíntese e também ajudam na manutenção de uma horta.

Nada incomum se os canteiros onde são cultivadas as verduras e as hortaliças não ficassem no telhado do Instituto, transformado em um jardim suspenso. Há um ano e meio, as plantas ornamentais que estavam no local foram substituídas pelas áreas de plantio. Entre as razões para a troca, os altos custos para a manutenção e a necessidade de mão-de-obra especializada.

A iniciativa foi do biólogo Paulo Luciano da Silva, que há seis anos trabalha no escritório central do Emater. Ele é o responsável pelo espaço, organizado com recursos materiais oriundos do próprio Instituto. A partir da mistura de terra preta, adubo e sementes, surgem do alto do prédio pés de alface, cebolinha, salsinha, rúcula, jiló e outros vegetais. A produção é inteiramente orgânica, conta com defensores naturais, e é alternada a cada quinze dias, para garantir a produtividade do solo. Por mês são produzidas aproximadamente 250 unidades.

Na época de colheita, cada criança que participa da atividade leva para casa alguma hortaliça. Assim como os estudantes, os servidores do instituto também não ficam com as mãos abanando, já que metade da produção é vendida a preço de custo aos funcionários, estoque que acaba em poucos minutos. A cobrança de 30 centavos pelas verduras e hortaliças é um valor simbólico, revertido para a manutenção da própria horta. A outra metade é doada a instituições de caridade. “Temos muita demanda. As pessoas gostariam de comprar mais e querem saber como podem fazer para ter hortas no telhado de casa”, conta o biólogo.

Os benefícios da horta cuidada por Paulo Luciano e pelos estudantes vão além do cardápio. A horta fica ao lado do refeitório e é um estímulo à boa alimentação dos funcionários. Além disso, todo o prédio passa a contar com o conforto térmico. “O espaço fica bonito. É agradável e aconchegante. As linhas de plantio ficam ao lado do restaurante e estimulam a alimentação saudável”, afirma.

Você também pode ter o seu
Não são apenas as novas construções que podem contar com um telhado verde. Adaptações em casas com telhados convencionais também permitem a colocação de plantas. As telhas são substituídas pela nova vegetação, após um reforço na impermeabilização da área e da estrutura que vai suportar todos os elementos.

O investimento para a instalação de telhados verdes varia entre 90 reais e 120 reais o metro quadrado, dependendo do tipo de jardim escolhido. “É praticamente o mesmo preço (que um telhado comum), mas o benefício é muito maior. Não existe nada que se equipare aos telhados verdes”, avalia João Feijó, engenheiro agrônomo e proprietário da empresa Ecotelhado, uma das pioneiras na criação de telhados verdes, no mercado há seis anos.

A colocação do telhado deve ser feita por profissionais especializados, pois necessita de uma complexa estrutura. Já a manutenção é igual a de um jardim comum e pode ser feita por qualquer morador da casa.

Nos Estados Unidos e países da Europa, são comuns as residências que aproveitam o telhado para garantir mais área verde. No Brasil, a prática ainda é tímida em relação aos outros países e é muito procurada por empreendimentos que buscam selos de certificação sustentável. “Ainda é o problema de custo. Se o arquiteto oferece a solução, quem tem compromisso e recursos vai adotar a ideia. Mas está começando a se popularizar”, afirma o arquiteto Paulo Lisboa. Entre as alternativas sustentáveis, os telhados verdes ainda estão atrás dos sistemas que utilizam energia solar, amplamente utilizados nas novas construções. “Falta divulgar mais”. Além de melhorias para as construções e cuidados com o meio ambiente, a arquiteta Sylvia Rola aponta ainda benefícios no mercado de trabalho. “A aplicação de telhados verdes em grande escala pode resultar na geração de emprego e renda, seja na produção de espécies vegetais quanto na manutenção destes novos espaços ajardinados”.

Especialistas acreditam que a popularização dos telhados verdes e demais práticas sustentáveis dependem diretamente de investimentos e incentivos por parte do poder público. João Feijó, da Ecotelhado, defende a colocação dos telhados verdes no plano diretor dos municípios. “Estamos discutindo em Porto Alegre uma lei que praticamente induz que todas as construções tenham telhados verdes. É preciso que isso seja feito e de forma planejada”, conta.

Na opinião de Paulo Lisboa, a aprovação mais rápida de projetos sustentáveis é um grande incentivo à colocação dos telhados verdes. “Com certeza as pessoas passariam a utilizar mais isso. São as políticas públicas adequadas ao incentivo destas tecnologias”, afirma.

Antes e depois da instalação de telhado verde em Niterói (RJ)

Como funciona o telhado verde
Camada 1: Membrana de proteção antirraízes
Protege a estrutura do telhado contra a ação de raízes mais extensas. A estrutura é flexível e tem a cor preta.

Camada 2: Membrana alveolar
Camada responsável pela drenagem e retenção do excesso de água que incide sobre o telhado verde. É destinada às raízes das plantas e composta por pequenos reservatórios de água.

Camada 3: Membrana de retenção dos nutrientes
Com nutrientes para as raízes das plantas, esta membrana é composta por uma espécie de tecido reciclado. Ela também retém parte da água absorvida pelo telhado verde.

Camada 4: Substrato rígido
Formada por EVA reciclado, a camada de substrato contém os nutrientes para a vegetação acomodada logo acima. Promove a oxigenação e evita o amassamento das raízes.

Camada 5: Substrato leve e nutritivo
Camada logo abaixo da vegetação, o substrato leve e nutritivo é composto por materiais orgânicos e sintéticos reciclados.

Camada 6: Vegetação
Plantas do telhado verde. Em geral é utilizada vegetação de pequeno porte, com fácil manutenção e alta resistência. É o tipo de vegetação que define a quantidade e os modelos de substratos que serão utilizados na estrutura do telhado verde.

* É importante estar atento à impermeabilização da área em que será colocado o telhado verde e o processo de drenagem da água. A escolha das plantas também é fundamental para a eficácia do telhado. Plantas com raízes longas, como arbustos, exigem a colocação de mais substratos ou materiais que impeçam a chegada das raízes à área de concreto, o que pode causar infiltrações e danos à estrutura.