Viajar sempre foi uma das minhas grandes paixões, e com o passar dos anos e a soma de experiências gratificantes, aprendi a conhecer outros países com uma mentalidade aberta, desfrutando em plenitude da grande diversidade cultural do planeta, de suas inúmeras paisagens e maravilhosos recursos naturais.

Nas últimas duas décadas, por motivo de trabalho e lazer, tive oportunidades únicas para mover-me por uma boa parte da geografia do globo terrestre, passando da Sibéria à Cordilheira dos Andes chilena, das Ilhas Maldivas ao Saara marroquino, dos fiordes noruegueses aos templos budistas japoneses. Após tantas viagens e contatos com pessoas tão diferentes, a maior lição de vida e sabedoria que assimilei foi entender em profundidade que todos os habitantes do planeta estão buscando um mesmo tesouro: a felicidade, no sentido mais amplo e universal de seu significado.

Parece mentira, mas em um pequeno país chamado Butão, situado no pé da Cordilheira do Himalaia, a riqueza não se mede em dinheiro, mas em felicidade. Em 1972, o país adotou o IFIB (Índice de Felicidade Interior Bruta) que substituiu o PIB (Produto Interno Bruto). Foi ideia do Rei Wangchuk, que através de entrevistas com aproximadamente dois milhões de butaneses estabeleceu os seguintes parâmetros para medir o IFIB: bem-estar psicológico, saúde, educação, bom governo, vitalidade da comunidade e diversidade biológica. Sem dúvida, um grande exemplo a ser seguido pelos governos que estão preocupados apenas com o PIB.

Hoje, mais do que nunca, somos totalmente conscientes de que nossa felicidade, e também a dos nossos descendentes, depende do estado de saúde geral do planeta. Sem ela, estaremos destinados a viver num mundo contaminado, sem qualidade de vida e ameaçado por graves catástrofes ambientais.
As viagens e o turismo são as primeiras indústrias do mundo, movendo 750 milhões de pessoas que gastam entre 1,5 e 2,5 bilhões de euros ao ano: um grande negócio com graves consequências para o planeta.

Para muitas pessoas, viajar significa deixar de lado as preocupações e mimar-se à base de cômodos hotéis, comidas copiosas e diversões relaxantes. As viagens de trabalho também devem começar a ser analisadas através de uma “mente verde”. Necessitamos adotar medidas e atitudes corretas para que esta atividade tão prazerosa não se transforme em danos sérios e irreversíveis para a Terra.

Justificando numericamente a importância de programar um turismo cada vez mais sustentável, apresento algumas cifras alarmantes:

• As viagens aéreas produzem uma assombrosa quantidade de contaminação atmosférica;
• O consumo de energia por quilômetro e passageiro é comparável ao de todos os automóveis que circulam na Terra, com a diferença que as emissões dos gases contaminadores a grande altitude têm um impacto médio 2,7 vezes superior aos que se produzem no nível do solo;
• Um navio transatlântico pode gerar 95 mil litros de águas residuais procedentes dos banheiros, 540 mil litros de águas residuais procedentes das duchas, das pias e da cozinha, sete toneladas de lixo e resíduos sólidos, 55 litros de produtos químicos tóxicos e 26,5 mil litros de águas contaminadas com óleos do fundo do barco.

O Centro de Destinos Sustentáveis da National Geographic introduziu o termo “geoturismo” para redefinir o conceito de viagem ecológica e responsável. Necessitamos mais do que nunca dar passo a um tipo de turismo que respeita, sustenta e reforça não só o caráter natural senão também o cultural do lugar em questão, sua história, sua cultura e seu legado, procurando contribuir ativamente ao bem-estar de seus habitantes.

Saara: um deserto com destino sustentável
Uma das minhas últimas viagens turísticas com caráter sustentável foi ao Saara de Marrocos. Pisei pela primeira vez neste deserto há 13 anos. Merzouga era então um pequeno povoado do Vale de Tafilalet, habitado por berberes nômades e semi-nômades. Era 1996, eu e meu marido caminhamos por 12 dias ao lado de uma caravana de dromedários ao mando de Hassam (um jovem e entusiasta berbere de Merzouga) e de Brahim (um ágil e vital nômade do Saara com 62 anos). Com eles tivemos a felicidade de conhecer o “som” do silêncio, as mágicas noites estreladas, a beleza do sol nascendo num mar de dunas alaranjadas, o canto de crianças junto ao fogo e repartindo um pão artesanal feito sobre pedras quentes e coberto de areia.

Durante a semana santa de 2009, decidimos que era hora de compartilhar aquela maravilhosa experiência com nossos filhos. Desta vez, nossa viagem foi muito mais confortável. O asfalto já chegava até Merzouga e, infelizmente, havia arrastado com ele uma grande quantidade de veículos 4×4 que circulavam pelas dunas deixando restos de lixo por onde passavam. O ruído dos motores havia quebrado o encanto do silêncio e os resíduos entre as dunas destruíram a sensação de estar explorando uma paisagem selvagem.

Hoje, não existe uma só família em Merzouga em que pelo menos um de seus membros não se dedique ao turismo. Evidentemente, ainda não se trata de um turismo ético e sustentável.

10 mandamentos do viajante sustentável

1) Fomentar o entendimento cultural;
2) Viajar com a mentalidade aberta, aprender a escutar e observar, descobrir o enriquecimento pessoal através do contato com outras culturas e formas de vida, refletindo sobre as experiências vividas;
3) Informar-se sobre a geografia, a cultura, a história e as crenças do lugar que se visita, e aprender um mínimo da língua local e como comportar-se como um convidado que entra na cultura do país anfitrião;
4) Ser consciente dos impactos sociais;
5) Apoiar a economia local indo a hotéis e restaurantes de propriedade de pessoas nativas do lugar, comprando produtos locais autênticos elaborados a partir de recursos renováveis;
6) Interagir com habitantes locais é uma forma adequada do ponto de vista cultural;
7) Não fazer promessas que não se possam cumprir, não ostentar riqueza, não distribuir esmola entre as crianças;
8 ) Pedir licença para tirar fotos de pessoas, casas ou outros lugares de importância para os habitantes locais;
9) Minimizar os impactos ambientais;
10) Conhecer e contribuir, dentro do possível, com projetos que favorecem o entorno e as comunidades locais.