Não há dúvidas de que as pressões exercidas pela expansão da população humana têm efeitos crescentes e catastróficos no nosso meio ambiente. São práticas de agricultura que aumentam a desertificação de solos férteis, pesca predatória e o jogo que deixa as reservas naturais acima do ponto de recuperação, poluição química do ar e das águas, desmatamento e a seca de terras antes úmidas. Os sistemas básicos de vida do planeta estão sendo destruídos.

Seria de se esperar que, em um ambiente cada vez mais doente, tenha sido criado o termo “poluição patogênica”, para descrever a crescente distribuição de doenças através de barreiras geográficas e ecológicas com a ajuda de atividades humanas. Ao mesmo tempo, a especialização crescente das ciências resultou em profissionais de saúde trabalhando isoladamente, mal preparados para tratar de doenças que surgem como consequência de uma combinação complexa de fatores que se interagem. Uma nova forma de pensar o assunto é necessária e acredito que vai incluir a medicina conservativa.

Os tão falados Princípios de Manhattan, que surgiram na primeira reunião “Um Mundo, Uma Saúde” em Nova Iorque, em 2004, são um excelente resumo do pensamento que norteia essa nova disciplina (veja mais em www.oneworldonehealtg.org). Os conceitos-chave são o reconhecimento de que as saúdes humana, animal e ambiental estão interligadas e que a compreensão e a discussão sobre essas complexas interações requerem uma abordagem colaborativa feita por equipes transdisciplinares. Cientistas veterinários da América do Norte estão à frente no desenvolvimento desse paradigma, estimulados por um número crescente de doenças zoonóticas emergentes e reemergentes, além do impacto na conservação da biodiversidade de patogênicos capazes de atravessar as barreiras de espécies.

Na Nova Zelândia há o exemplo da Salmonella typhimurium DT160, um novo desafio para o país, que causou mortes em massa em meados de 2000 e 2001 e também morbilidade e mortalidade em uma grande variedade de espécies, incluindo humanos, mamíferos domésticos, animais selvagens e pássaros. Outros exemplos incluem o sarampo e o pólio em gorilas das montanhas em contato com ecoturistas, e cinomose canina causando mortes em leões. É estimado que entre 60% e 75% dessas doenças infecciosas emergentes tenham uma reserva selvagem.

No país, há pouco conhecimento sobre a situação de doenças entre espécies nativas e ferais, e isso tem implicações significativas para a biossegurança nacional (não é possível dizer quais novos patogênicos estão entrando no país se não sabemos os que já estão aqui), conservação da biodiversidade, assim como a saúde de humanos e animais domésticos. Consequentemente, os principais esforços de pesquisa foram direcionados para a vigilância de doenças selvagens e para o estabelecimento de dados que permitam a monitoração da vida selvagem. Esse trabalho envolve muitos programas de recuperação de diversas espécies nativas.

Do jeito que as coisas estão, é visível a falha na tentativa de reverter a degradação do planeta. Como Einstein disse, “os problemas existentes não podem ser solucionados pelo mesmo modelo mental que os criou”. Com isso em mente, é encorajador visualizar alguns passos no caminho para a colaboração entre agências governamentais, institutos de pesquisa e outros com interesse comum em zoonoses e doenças de vida selvagem. A medicina conservativa é uma visão realmente transdisciplinar e um caminho a ser seguido.