Por Carolina Gomes

Roberto acorda às 6h da manhã. Toma um banho de cinco minutos. Cumprimenta a empregada que trabalha na casa há dez anos e é tratada como parte da família. Roberto coloca na torradeira duas fatias de pão da noite anterior. Come um iogurte e joga a embalagem na lixeira separada para o lixo reciclável.

Às 8h Roberto entra no trabalho. Logo que chega pega um cafezinho num copo descartável. Durante o dia consome vrios, cada um num novo copo de plástico. Quando chega em sua mesa, imprime 20 páginas de um relatório para estudar para uma reunião. Ele se dá conta que já tinha imprimido o mesmo material na semana anterior, então rasga a nova impressão e joga no lixo. Fica irritado e acaba descontando no estagiário que trabalha com ele há quase um ano, mas que ele ainda não sabe o nome.

Parece irracional uma mudança de atitude tão gritante? Mas é o que a maioria das pessoas faz, sem se dar conta, quando passa do ambiente pessoal para o profissional. Reciclar embalagens, economizar água, não desperdiçar comida, passar roupas e brinquedos do filho mais velho para o mais novo. São atitudes que tomamos naturalmente em casa para ajudar na economia doméstica. Mas e quando chegamos ao trabalho? Por que ainda é tão raro esse mesmo pensamento no ambiente profissional?

Funcionários da Kraft Foods do Brasil interrompem trabalho e participam de ações voluntárias (Foto: Carolina Gomes)

A boa notícia é que algumas empresas já estão incentivando uma mudança de comportamento dentro do dia-a-dia dos colaboradores. No Laboratório Sérgio Franco, que trabalha com análises clínicas no Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, a ideia é estimular que os projetos de sustentabilidade dentro da empresa sejam criados pelos próprios funcionários. A empresa premia duas vezes por ano as cinco melhores propostas que contribuam para a melhoria dos processos de trabalho. “Acreditamos que uma empresa se constrói com pessoas e ideias”, defende Antonio Vazquez, diretor regional do laboratório em Curitiba.

E as propostas internas têm surpreendido. No início de 2009, todas as unidades do laboratório em Curitiba foram reformadas para obedecer um padrão da matriz, que fica no Rio de Janeiro. Com essas reformas, muitos móveis teriam que ser descartados. Uma primeira parte do mobiliário foi doada para uma instituição de apoio infantil. Foi aí que a supervisora de atendimento, Karine Toniello, teve uma ideia. Ela sugeriu que os móveis fossem vendidos para os próprios funcionários do laboratório a um preço mais acessível e o valor arrecadado fosse revertido em prêmios para a festa de final de ano e outras ações de solidariedade. “Segundo a filosofia da empresa esse material seria doado, mas nos pareceu mais interessante envolver os colaboradores internos para que esse seja o início de um processo de reeducação que abordará várias frentes”, explica o diretor. A proposta foi implantada e deu muito certo. Uma das funcionárias, inclusive, aproveitou para investir em seu próprio negócio com a compra de vários móveis usados.

O projeto mostra que o conceito de responsabilidade social nunca esteve tão interligado com a rotina interna das empresas. “Começamos a prestar atenção na forma como as empresas se relacionam com a comunidade à sua volta, incluindo seus funcionários. Não simplesmente respeitando essa comunidade, mas atuando de forma ativa para ajudá-la. É uma nova consciência do contexto social e cultural no qual se inserem as empresas”, comenta Antonio.

A grande troca
E o Laboratório Sérgio Franco não segue sozinho por esse caminho. Aos poucos se multiplicam as empresas com essa visão. Na Kraft Foods Brasil, 2.575 funcionários de todo país participaram de uma semana global de voluntariado, entre os dias 5 e 10 de outubro. Isso significa que quase 40% da mão-de-obra da empresa parou para ajudar mais de 20 mil pessoas pela prática da solidariedade. Como a produção não poderia parar, mesmo os funcionários que não puderam participar como voluntários estavam envolvidos na ação porque precisaram se organizar para dar conta de todo o trabalho.

Foi assim no departamento de planejamento financeiro. Em plena quarta-feira, todos os funcionários do setor deixaram de lado os chocolates e bolachas para ajudar a empacotar feijão e ervilha para doar a instituições de caridade. Sobrou para o chefe, que tinha participado de uma atividade numa escola no dia anterior e teve que segurar as pontas sozinho no escritório naquela quarta-feira de sol. Bom para Anelise Skrzek, funcionária do setor e grávida de seis meses e meio. “Esse tipo de trabalho, mesmo sendo muito diferente da nossa rotina, faz você pensar em maneiras melhores de fazer as coisas lá no nosso dia-a-dia. A gente percebe que é tudo uma questão de criatividade e organização”, conta Anelise.

E, segundo Fabio Acerbi, diretor de Assuntos Corporativos da empresa, é exatamente esse o objetivo. “É uma grande troca. Nós liberamos os funcionários, que dão alegria a outras pessoas e voltam funcionários ainda melhores para a empresa”, defende. A Kraft já tem tradição em ações voluntárias. Dentro da empresa existe até um setor responsável pela coordenação dessas atividades. São cerca de 800 voluntários permanentes que recebem apoio efetivo da empresa, seja liberando do trabalho ou doando produtos. “A semana global serve principalmente para divulgação interna. Para que mais funcionários conheçam e se encantem com a experiência do voluntariado”, explica Fabio.

Seja qual for o projeto desenvolvido, é com ações simples de sustentabilidade que a cultura do “cada um por si” cai por terra. “O grupo percebe que o resultado não será alcançado somente com ações individuais, mas sim com a conscientização de todos que formam parte daquele ambiente. Criando essa consciência mais sustentável, os funcionários passam a analisar e discutir outras questões de maneira mais consciente também”, finaliza Antonio.

Trabalho de formiguinha
Apesar dos exemplos, não há como negar que há sim uma dificuldade para começar projetos de mudanças, principalmente em grandes empresas. E foi sabendo disso que Tamara Rezende de Azevedo, Thomas Ufer e Maria Paes Barretto criaram a CoCriar. O objetivo é levar às mais diversas empresas maneiras diferentes de fazer as coisas. Thomas defende que a verdadeira sustentabilidade é algo mais profundo, estaria ligada a um questionamento do que está por trás da tomada de decisões dentro dessas estruturas de trabalho mais rígidas. “Defendemos um sistema mais orgânico e menos mecânico. Formas de liderança não baseadas no mandar, mas na participação. O líder sai da posição da pessoa que tem todas as respostas e passa a ser um facilitador”, explica.

Para isso é preciso criar dentro das empresas espaços de sensibilização, que incentivem a interatividade. “Isso é um calo no sapato das grandes empresas. É incrível a ausência de habilidade das pessoas de conversarem, de construírem algo em conjunto”, conta Tamara. Mas a boa notícia, mais uma vez, é que é possível. “Quando conseguimos ligar a consciência individual de cada um, aí se dá a virada. A partir daí a organização se torna naturalmente sustentável porque traz essa forma de trabalhar diferente”, comemora.