Por Jessica Krieger

O mundo da moda sempre foi alvo fácil para os ativistas de plantão, seja por conta das peles de animais utilizadas na confecção de artigos de luxo, seja pela “vista grossa” quando assunto é o trabalho infantil e escravo realizado pelos fornecedores em países em desenvolvimento. Na tentativa de reverter essa visão pessimista, mudar a opinião pública e, é claro, faturar em cima da onda save the planet, marcas de todo o mundo passaram a investir em roupas ecologicamente corretas, feitas com tecidos que seguem padrões internacionais de sustentabilidade e preservação ambiental.

As iniciativas foram muitas. Vivienne Westwood, por exemplo, declarou recentemente que as pessoas devem comprar menos roupas e evitar lavá-las. “Se estiver suja, a roupa vai parecer melhor”, disse, no tom de deboche que a consagrou. Longe das brincadeiras, grifes internacionais como Alexander McQueen e Yves Saint Laurent levantaram a bandeira ambientalista apoiando o documentário Home, que mostra a situação das áreas naturais do planeta em degradação. A Gucci não só apoiou o lançamento do filme, que aconteceu no Dia Internacional do Meio Ambiente (5 de junho), como criou uma edição limitada de camisetas, comercializadas a 140 euros (cerca de 400 reais). É de algodão orgânico e vem em embalagem reciclável – tudo como manda o figurino das novas tendências da moda mundial, que sinalizam o uso de fibras obtidas em culturas orgânicas como a bola da vez para os fashionistas.

Para Sylvio Nápole, gerente de tecnologia da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit), o mercado mundial está ávido por produtos que agregam conceitos de sustentabilidade e apelo social. “Essas ações vão muito além das questões de marketing e promoção da marca. As empresas estão realmente preocupadas com toda a cadeia produtiva porque sabem que o consumidor final está atencioso com esse tipo de ação”, afirma.

As empresas de moda, assim como companhias de outros segmentos, sabem que investir em produtos engajados com o meio ambiente faz toda a diferença no processo de comunicação com o consumidor consciente. Estes, por sua vez, atentam cada vez mais a questões relacionadas aos recursos ambientais: chegam a pagar mais caro por produtos ecologicamente corretos e a prestar mais atenção nas grifes que agregam conceitos ecológicos intrínsecos nas suas ações.

Este é o caso de Ana Carolina Whitaker Medeiros, gestora ambiental e professora de yoga, que levou os princípios que aplica no ambiente de trabalho para a vida cotidiana. “Comecei a me preocupar em consumir produtos e serviços que tivessem uma cadeia mais sustentável em 2004, quando estava no último ano da faculdade. Mas a minha preocupação com o meio ambiente surgiu ainda jovem. Fui criada em fazenda e sempre estive em contato com a natureza”, conta. Há dois meses, quando esteve num evento que vendia produtos orgânicos, comprou uma bolsa que, além de bonita, considerou ecologicamente correta.

Vestido de algodão orgânico com tingimento vegetal à base de anileira (Foto: Alberto dy)

Dos campos aos ateliês
O uso do algodão tradicional perdeu espaço dentro dessa ótica ambiental, uma vez que sua forma de cultivo traz prejuízos ao meio ambiente devido ao uso de agrotóxicos e pesticidas que causam problemas também à saúde dos trabalhadores. Como alternativa, cresceu a procura pelo algodão orgânico, tanto pelas tecelagens quanto pelos estilistas que querem associar sua imagem a produtos ambientalmente responsáveis. Hoje, esta matéria-prima está entre as mais utilizadas pela indústria na fabricação de peças com conceito ecológico. Este tipo de algodão é cultivado dentro de um sistema que fomenta a atividade biológica, sem o uso dos agrotóxicos e produtos químicos envolvidos no processo tradicional. E precisa de certificação em todas as etapas de produção.

Sylvio Nápole, da Abit, explica que o algodão orgânico precisa de um tratamento diferenciado também na fiação e tecelagem. “Este tipo de matéria-prima não pode trabalhar junto com a convencional. Há uma separação, um tratamento diferenciado que vai além do cultivo e envolve a produção do tecido como um todo”, explica. Mas o problema, segundo ele, está na oferta, muito abaixo da demanda exigida pelo mercado atual. “A produção de algodão tradicional no país é de 800 mil a um milhão de toneladas por ano, enquanto a oferta do orgânico não chega a 50 toneladas por ano”, acrescenta.

Estatisticamente, a cadeia de produção de algodão orgânico no país ainda é pequena, sem escala industrial como na Turquia, Índia ou Estados Unidos. Existem certificados cerca de 600 hectares, que são trabalhados especialmente por produtores familiares. O crescimento de cerca de 30% na produção pode parecer promissor, mas a área plantada de algodão no país ainda é pequena se comparada a esses países. De acordo com dados da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), a safra 2008/2009 terá 1,2 milhão de toneladas – com uma área plantada superior a 800 mil hectares.

Mesmo com a demanda restrita, diversas empresas já usam este algodão na fabricação de roupas com conceito de moda e apelo ambiental. Lançada no ano passado, a marca Éden, do grupo YD Confecções, é prova disso: as peças comercializadas pela grife são confeccionadas a partir de produtos orgânicos, inclusive com corantes naturais. Muito antes, em 2006, a Levi´s já havia lançado uma coleção ecologicamente correta, com produtos fabricados com algodão orgânico, botões e zíperes reciclados e, para finalizar, embalagens com papel reciclado.

Roupa produzida a partir de fibra de bambu (Foto: Divulgação)

A baixa oferta desta matéria-prima obrigou a indústria têxtil a pesquisar outros tipos de fibras ecologicamente corretas. Uma das experiências mais bem sucedidas, neste caso, foi o bambu. Muito bem aceito pelos ambientalistas, o bambu cresce rápido, melhora a qualidade do solo, não requer uso de pesticidas e possui funções antibacterianas. Ou seja, é realmente uma matéria-prima renovável e biodegradável. Prato cheio para fábricas de tecidos e marcas que apostaram em peças underwear e lingeries. A tecelagem Marles, por exemplo, foi uma das primeiras a trazer para o país uma linha de malhas Bamboo, que leva a certificação OKO-Tex Standart 100, um rigoroso selo de qualidade europeu para produtos têxteis que não carregam substâncias nocivas à saúde.

O toque macio, com leveza e fluidez dessa linha da Marles, atraiu atenção de grifes como a U/W Casa das Cuecas, que criou, entre outras peças, roupas sleepwear feitas com a fibra do bambu. Os pijamas são confeccionados em bases caneladas feitas a partir desta matéria-prima. “O tecido tem características únicas, como proteção contra raios UV, capacidade termodinâmica, excelente absorção de umidade e transpirabilidade, leveza, maciez, além de propriedade bacteriostática, que permanece na peça mesmo após dezenas de lavagens”, afirma Izo Levin, diretor de marketing da marca.

Entre as opções sustentáveis está, também, o Tencel, da empresa austríaca Lenzing. A fibra é celulósica, feita a partir da polpa de madeira retirada de florestas gerenciadas, com manejo sustentável. Este material precisa de 20 vezes menos água no cultivo em relação à cotonicultura. Com processo de produção 100% limpo, o Tencel é muito utilizado em peças mais casuais e roupas esportivas, graças às suas propriedades como absorção da umidade do corpo, maciez externa e controle bacteriano, oferecendo conforto térmico e aquela sensação de bem-estar indispensvel para artigos deste segmento.

No varejo
O varejo aproveitou o aumento da demanda pelos consumidores ávidos por produtos que não agridem o meio ambiente e apostou pesado em modelos de loja totalmente sustentáveis. É o caso da curitibana Joyful, que investiu na definição “estilo de vida sustentável”, com um conceito ecológico em todo o processo produtivo das peças da marca – da matéria-prima utilizada até o ponto de venda. A loja é um caso á parte: “O piso é de madeira com certificado FSC, e o cimento utilizado na reforma, menos poluente. Aproveitamos a iluminação natural para o ambiente interno, além de luminárias que captam a luz solar. Os móveis e a fachada foram construídos com madeira de demolição”, explica Adilson Filipak, proprietário da loja ao lado da irmã, Edilaine.

Pijama da linha Sleepwear da U/W - Casa das Cuecas (Foto: Divulgação)

Na coleção exposta nas araras, peças confeccionadas em Tencel e algodão orgânico. Para o tingimento das peças, a Joyful aposta em corante vegetal, extraído de frutos, raízes e árvores como pau-brasil, urucum, entre outras. Como resultado, roupas que atraem o desejo de mulheres contemporâneas, de 35 a 45 anos, com consciência ecológica, é claro. “Elas sabem da importância de adquirir peças com apelo ambiental. Mas a maioria das clientes não procura roupas sustentáveis num primeiro momento. Depois que passam a conhecer todo o processo, adotam todo o conceito implícito nas roupas”, conta Filipak, que pretende ampliar a distribuição dos looks com estilo ambiental para dezenas de multimarcas em cidades pontuais do sul e sudeste do país.

A consumidora Ana Carolina Medeiros concorda: “O que entendo é que, cada vez mais, as pessoas estão procurando saber de onde vêm os produtos que elas consomem, a história desses produtos, e muitas empresas estão tentando traçar suas cadeias produtivas e divulgar para os consumidores. Um situação leva a outra. Consumidores mais conscientes exigem empresas mais conscientes. Empresas mais conscientes conversam com consumidores mais conscientes”.