Fazer compras, ir ao cinema ou simplesmente passear por shopping centers já é parte do cotidiano de grande parte dos brasileiros que moram em cidades. Buscando comodidade, segurança e lazer, as pessoas consomem e movimentam um setor que não para de crescer e que garante a geração de mais de 720 mil empregos.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), existem 385 centros comerciais no Brasil, por onde circulam mais de 325 milhões de pessoas por mês, que geram um faturamento estimado de 64,6 bilhões de reais ao ano. Tudo isso graças a 65,5 mil lojas e 2,2 mil salas de cinemas, que ocupam uma área de quase 9 milhões de metros quadrados, equivalente a aproximadamente 1.046 campos de futebol. São números assustadores que mostram a dimensão da participação dos centros comerciais na economia brasileira.

Mas com tantas lojas, pessoas circulando, empregos gerados, cinemas, é de se esperar que os shopping centers produzam uma quantidade inimaginável de lixo, seja reciclado ou orgânico, este principalmente vindo das praças de alimentação. E com tanto lixo, fica a pergunta: para onde tudo isso vai?

Existem diversos destinos para os rejeitos de centros comerciais, mas os mais comuns ainda são os aterros sanitários. Sem dúvida é o mais simples e barato a se fazer, mas nem é preciso dizer que é péssimo para o meio ambiente e, consequentemente, para todas as pessoas que vivem em áreas de lixão.

Entretanto, a cada dia que passa os administradores de shopping centers estão mais antenados e preocupados com a cadeia negativa que geram, e por isso trataram de buscar processos mais limpos e responsáveis, com benefícios para todos os envolvidos.

Os principais exemplos de preocupação com os resíduos gerados estão relacionados com estações de reciclagem. O Shopping Iguatemi de Fortaleza (CE), por exemplo, direciona por mês mais de 35 toneladas de resíduos sólidos para uma estação de pré-reciclagem, onde são separados papelão, papel branco, plástico e latas. Depois desse processo, todo o material é encaminhado para empresas especializadas que o tratam e o transformam em matéria-prima.

Na capital federal, quem também conta com processos de reciclagem é o Brasília Shopping. A coleta seletiva é realizada por três empresas diferentes, que recolhem lixo seco, infectante, papel, papelão, plástico e vidros. E há cinco anos o centro comercial tem contrato com a Recicoop (Associação dos Manipuladores de Resíduos Recicláveis de Planaltina-GO), que separa aproximadamente 12,6 toneladas de lixo por mês. O papelão é o material com maior volume de arrecadação, seguido pelo papel.

O superintendente do shopping, Geraldo Mello, afirma que além de garantir um bom destino para o lixo, essa separação garante um retorno financeiro com a venda ou reaproveitamento de materiais recicláveis, e ainda proporciona uma boa imagem para a empresa. “A reciclagem preserva o meio ambiente e traz benefícios para toda a comunidade”, diz. E de fato a comunidade agradece, como explica o coordenador da Recicoop, Luiz Roberto Vieira Costa. “Com essa triagem, é garantido o sustento de cinco famílias, que chegam a arrecadar um total de 3.535 reais por mês”, conta.

Mas se os resíduos reciclados já estão encaminhados, o que dizer do lixo orgânico, produzido principalmente nas praças de alimentação? Esse é um desafios não só de centros comerciais, mas de qualquer empreendimento que acaba gerando restos de comida. Entretanto já é um desafio que vem sendo vencido, pelo menos por um shopping center de Curitiba (PR). O Palladium desde sua abertura em 2008 já conta com separação de resíduos sólidos, mas foi um ano mais tarde que o lixo orgânico também passou a ser reciclado, através de uma iniciativa do próprio centro comercial, em parceria com o Instituto Ambiental do Paraná e as empresas Roadimex e Abdalla Ambiental.

O processo parece até simples, mas é mais complexo do que podemos imaginar. Os resíduos orgânicos produzidos no interior do estabelecimento são despejados em um tanque metálico com capacidade de 7,5 mil litros. A cada hora o misturador é acionado por cinco minutos para triturar e misturar os resíduos, para evitar a decantação no interior do tanque, assim como a fermentação do lixo, que gera mau cheiro. Na sequência o conteúdo é transferido para um caminhão tanque, que segue diretamente para uma granja de engorda de suínos na cidade de Araucária (PR), na Região Metropolitana de Curitiba. Chegando na granja, os resíduos são misturados e transportados até tanques aquecidos a 90ºC por 20 minutos para eliminar bactérias e outros micro-organismos que possam prejudicar os suínos. Por fim o resíduo passa por tubulações até chegar aos cochos de alimentação dos animais.

Marco Antonio Zanini, sócio-proprietário da granja da Abdalla Ambiental, para onde vão os rejeitos do Shopping Palladium, explica que o processo deve ser o mais limpo possível. “O porco sempre comeu resto de comida, mas de uma maneira primitiva e sem higiene. Se caso não nos preocuparmos, cria-se um foco de bactérias, moscas e mau cheiro, e não tem o que fazer. Então esse processo tem que ser o mais limpo possível, mas isso só funciona se o local de origem dos resíduos não deixar contaminar o lixo”, comenta. Ele explica que os rejeitos garantem de 550 a 600 gramas de peso que os porcos ganham por dia. Se comparado com ração, ainda não consegue competir, mas ele já tem planos para mudar essa situação. “Hoje a comida tem energia e gordura, mas pouca proteína. Por isso não dá o mesmo resultado. Mas quando eu tirar a água e colocar soro e um pouco de farelo de soja, as coisas serão diferentes”. Só que Marco Antonio não se contenta com isso. Ele quer fazer muito mais e acredita que é possível. “Para tudo tem um jeito. Se fizermos as coisas direito, vemos que conseguimos eliminar resíduo sem prejudicar o meio ambiente”, finaliza.

Mas sustentabilidade em shopping centers não se resume a cuidados com o lixo. Outro fator bastante importante para os centros comerciais é a redução no consumo de água e energia, que garante melhor qualidade de serviço para o consumidor e economia, sem contar que ajuda o meio ambiente. É o que comenta Maria Luisa Pucci, diretora de marketing do Shopping Cidade Jardim, localizado na capital paulista: “Os shopping centers contam com um grande fluxo de pessoas e também abrigam muitas lojas, gerando lixo e muitos gastos com energia e água. Por isso a questão de sustentabilidade se torna obrigatória em empreendimentos desse tipo”.

Muito do que é feito nos centros comerciais para buscar espaços mais sustentáveis nem passa pela cabeça dos consumidores. O fato de alguns empreendimentos terem o teto transparente, por exemplo, não é apenas para deixar o ambiente mais bonito, mas também para economizar energia. Ou aqueles que deixam espaços ao ar livre, que além de garantirem um ambiente mais natural, também economizam bastante com ar condicionado. Podemos não perceber, mas muito já está sendo feito para que a experiência de consumo do visitante seja melhor e que isso impacte o menos possível o meio ambiente.