Por Rafael Bruno

São Paulo amanhece com o céu indicando mais um dia de chuva, e mesmo assim, o movimento é intenso às 9h de sábado na USP, o lugar mais procurado pelos corredores da cidade. Para essas pessoas, vale acordar cedo e encarar o tempo feio para cumprir o treino. Pode parecer sacrifício, mas é a recompensa desse esforço que move milhares, todos os dias, a correr e pedalar nas ruas da Cidade Universitária. A principal motivação de quem procura um grupo de corrida e começa a praticar regularmente é a busca pela qualidade de vida e a aposta em hábitos mais saudáveis. O próximo passo é cumprir o desafio de manter o treinamento sem ceder à preguiça. E quem consegue essa regularidade, geralmente, são aqueles que já traçaram metas para as provas que disputam, ou mesmo os que já se dizem “viciados” no hábito de correr.

Claudemir Terto ministra treino para o grupo de corrida que se reúne assiduamente para treinar na USP

Claudemir Terto ministra treino para o grupo de corrida que se reúne assiduamente para treinar na USP (Foto: Leonardo Gali)

Foram estes que compareceram na manhã chuvosa de sábado no assíduo encontro da assessoria esportiva que leva o nome de Adauto Domingues, o técnico do maratonista Marílson Gomes dos Santos. Mas quem fica lá não é ele, e sim seu fiel escudeiro Claudemir Terto, de 47 anos, que coordena os treinamentos do grupo de corrida. “Normalmente é assim mesmo. Choveu, não aparece ninguém”, lamenta Claudemir, enquanto observa o movimento dos carros que chegam à praça da reitoria da USP e aponta para duas alunas que já se alongam: “essas já têm inscrição em prova e não faltam treino de jeito nenhum”.

Tatiane Baccarin é uma das que já se alongavam quando Claudemir acabava de montar o “acampamento” do grupo na praça. Aos 21 anos, ela resistiu às festas de fim de ano e manteve uma média de três treinos por semana desde que começou a correr, no fim do ano passado, logo depois que a sua formatura na faculdade de Educação Física lhe deu mais tempo para cuidar de si. “Em primeiro lugar, foi a qualidade de vida”, responde Tatiane sobre os motivos que a fizeram começar a correr. “A sua vida muda muito depois que você começa, é uma descarga para o stress. Chega uma hora que você precisa soltar endorfina”, completa a corredora amadora, já cumprimentando outro grupo que driblou a chuva e chegou para se exercitar.

A ação da endorfina

A ação da endorfina

Endorfina é o nome genérico dado a um grupo de substâncias produzidas pelo nosso corpo e que são capazes de produzir sensação de bem estar. Ela é liberada após o esforço intenso de uma atividade física, e age junto com outros agentes como a serotonina e a adrenalina, que têm função análoga no organismo. “Como tudo que gera prazer e alívio às tensões tão comuns em nossa vida, especialmente em uma sociedade tão dura e exigente, a falta destas sensações positivas gera um efeito negativo quando ausente, como quando um indivíduo ativo deixa de realizar seus exercícios. Esta sensação ruim provocada pela falta de atividade física é interpretada como uma dependência ao exercício, erroneamente simplificada como o vício pela endorfina”, esclarece o fisiologista Luiz Augusto Riani, pesquisador da USP que também desenvolve trabalho em academias.

Superando limites

Além disso, na parte psicológica, a conclusão de desafios e a superação de limites contribuem para todas as respostas positivas do exercício e ainda estabelecem interações sociais. “Por isso, o exercício é capaz de nos tornar altamente eficazes para as tarefas cotidianas, resistentes às pressões da vida e com uma sensação de tranquilidade e realização pessoal, elevada auto-estima e prazer”, acrescenta Luiz.

Para o treinador Claudemir, esse tipo de mudança de hábitos promovida pela corrida não pode ser alcançado na esteira. “Treinar no meio das árvores é outra coisa, é uma questão de se sentir bem. É ótimo estar no meio da natureza e ver tantas outras pessoas correndo, é um incentivo”, destaca.

A cena protagonizada por Claudemir e todos os outros corredores que vão à USP é repetida diariamente, e mostra o caráter sustentável deste esporte, que é de livre acesso a todos e não depende muito de equipamentos caros nem de um parceiro ou adversário. Embora a corrida em grupo seja a opção mais procurada justamente pela leveza proporcionada pelo treino entre amigos.

“Quando praticada em grupo, novas amizades ampliam o círculo de relações e, consequentemente, criam oportunidades de convívio em diferentes situações. O lado afetivo aproxima as pessoas que buscaram, pelos mesmos motivos, ajuda na prática regular de corrida”, analisa o professor José Aguilar Cortez, que trabalha em uma linha de pesquisa que relaciona a atividade física com a qualidade de vida. “A corrida é uma atividade física que pode ser praticada com equipamentos simples, que nem sempre são caros. O bem estar associado à prática acaba ‘viciando’ o praticante que encontra na corrida, pois é uma oportunidade para a introspecção e descarga do estresse acumulado por motivos pessoais ou de trabalho”, completa José.

Claudemir posa com grupo de corrida. Tatiane (de preto, à dir.) começou a treinar buscando qualidade de vida

Claudemir posa com grupo de corrida. Tatiane (de preto, à dir.) começou a treinar buscando qualidade de vida (Foto: Leonardo Gali)

O grupo de Claudemir que combinou de se reunir na manhã de sábado já começava a ficar mais numeroso, e as conversas sobre metas de tempos, novos treinos e alongamentos específicos dividia o ambiente com as lamentações quanto à chuva, que engrossava. “Vamos fazer uma corrida de aquecimento de 15 minutos”, decreta o treinador. O grupo de oito pessoas logo se junta ao constante fluxo de corredores pelas ruas da USP. Claudemir espera junto à sua parafernália de objetos de treino, garrafões de água e barras de cereais enquanto observa o quanto essa terapia ajuda também no equilíbrio mental. “Tem muita gente que me vem dizer que prefere pagar um salário para um treinador do que para um psicólogo”, revela.

“As pessoas tentam usar o exercício para melhorar a vida. Elas saem do trabalho para fazer atividade e relaxar. Por isso, muitas vezes elas acabam desabafando para mim mesmo, e a gente faz esse papel também, de conversar com elas, porque a convivência é tanta que passamos a fazer parte da mesma família”, completa Claudemir.

Não demorou muito para que ele realmente se passasse por psicólogo, mas dessa vez diante de um colega de profissão. O corredor profissional Adriano Bastos, heptacampeão da maratona da Disney e chefe de uma assessoria esportiva própria, apareceu para cumprimentar o amigo e teve que ouvir: “Você tem potencial para ir muito mais longe, mas tem que correr menos, cara”. Claudemir pediu para que o colega abrisse mão dos eventos menores para priorizar objetivos mais ousados. Mas é justamente a hiperatividade de Adriano Bastos que motiva pessoas como o comerciante Marcelo Azambuja, de 45 anos, a seguir seus passos tanto nos treinos da USP quanto nos eventos oficiais.

Adriano Bastos (de preto à dir.), heptacampeão da maratona da Disney, motivou Marcelo (último à esq.) a encarar o "Desafio do Pateta"

Adriano Bastos (de preto à dir.), heptacampeão da maratona da Disney, motivou Marcelo (último à esq.) a encarar o "Desafio do Pateta" (Foto: Leonardo Gali)

Incentivado por Adriano, Marcelo aceitou encarar o “Desafio do Pateta”, que consiste em correr uma meia maratona e também a maratona completa no dia seguinte. Essa aposta é feita durante a corrida que acontece nas dependências da Disneylândia todo começo de ano, e que Adriano tem saído como vencedor nas últimas seis edições, com sete títulos no total. O agravante foi que, por trabalhar no comércio, Marcelo precisou dividir os treinos com a pesada rotina das festas de fim de ano em sua loja. Obstinado pelo desafio, ele precisou se acostumar a trabalhar até meia-noite, e ainda assim acordar antes das 6h da manhã para treinar.

“É recompensador, mas foi muito difícil. Sem dúvida, é uma conquista”, comenta Marcelo, que começou a correr há quatro anos, apenas para acompanhar um amigo que treinava na esteira para a São Silvestre. “A evolução foi muito rápida, em um mês, eu já me sentia diferente, com mais disposição no trabalho”, recorda.

Para o professor José, todos que, como Marcelo, praticam corrida com regularidade, experimentam benefícios fisiológicos, psicológicos e sociais que proporcionam uma qualidade de vida diferenciada. E, para não desistir diante de um desafio tão duro, só mesmo com muita dedicação nos treinos complementares. “As desistências estão associadas, principalmente, ao aparecimento de dores lombares, lesões de joelhos ou tornozelos e a causa principal: a falta de exercícios localizados e alongamentos que previnem lesões e dores que limitam o tempo e a qualidade da prática”, observa José, lembrando da importância de fortalecer os músculos de pernas, coxa e abdome a fim de proteger as articulações.

Cuidados antes de começar

O fisiologista Luiz Riani lembra ainda que, para que haja respostas positivas ao exercício, é necessário que o indivíduo esteja adequadamente alimentado e hidratado: “Para que sejam liberadas as endorfinas e demais substâncias neuroativas que otimizam o metabolismo, é preciso fazer atividades em uma intensidade elevada de esforço, mantida por tempo adequado, algo que só pode ser atingido se forem oferecidos ao corpo a energia necessária”. Do contrário, a fadiga precoce e a fragilidade do organismo comprometem o exercício. Por isso, qualquer pessoa que quiser começar a correr precisa passar por uma avaliação médica. “Antes de passar o treino, eu tenho que ver o exame do cardiologista. Se estiver tudo OK, começamos a trabalhar, mas precisa ser em conjunto com um nutricionista”, explica o técnico Claudemir.

E é aí que começa uma mudança de hábitos que vai muito além da corrida propriamente dita. Comer bem e na hora certa, descansar adequadamente e abrir mão de vícios como cigarro e bebida já fazem uma grande diferença para o organismo. E este tipo de atitude está diretamente relacionada ao treinamento regular de corrida. Por isso, para cidadãos que encaram diariamente a rotina de uma cidade como São Paulo, se exercitar é ainda mais importante. Não é à toa que, além da USP, outros parques como o Ibirapuera e o Villa Lobos também ficam lotados depois do expediente e no fim de semana. Isso não existia há 30 anos”, lembra Claudemir.

Por outro lado, o técnico lamenta a falta de investimento dos clubes grandes da cidade, que, segundo ele, já foi maior. Entretanto, o que se vê nas sedes de Corinthians e Palmeiras, por exemplo, já é uma grande mobilização em torno dessa causa. Ambos os clubes mantêm grupos de corrida que levam a marca imortalizada no futebol, o que também serve de atrativo para muitos.

Do mesmo modo que, ao contrário do que possa parecer, a imagem de um treinador de alto nível como Adauto Domingues acaba tendo efeito contrário, e na verdade afasta novos alunos. “As pessoas pensam que vão ter que correr que nem o Marílson, e por isso se assustam”, adianta Claudemir, já prevendo uma mudança no nome da assessoria esportiva para o futuro. Assim como a chuva, trata-se de um dos muitos obstáculos para quem precisa romper o sedentarismo. O segredo, segundo o professor José, é saber dosar o exercício no começo, sem querer seguir os passos de um Marílson logo de cara. Em um primeiro momento, é preciso administrar a ansiedade que precipita atitudes de excessos que acabam comprometendo a continuidade da prática.

“Dizem que depois do carnaval é que tudo começa a funcionar. Com corrida é a mesma coisa”, compara Claudemir, lembrando do prejuízo daqueles que pararam o treino durante as festas de fim de ano e agora querem perder tudo o que comeram em um mês. O pior é que apenas duas semanas de pausa no treino é suficiente para comprometer o condicionamento físico desenvolvido durante um ano inteiro. Por isso, para o professor José, para começar é preciso ser racional, reconhecer as próprias limitações e respeitar as etapas. “A caminhada é a primeira, quem nunca correu deve começar pela caminhada. Depois de alguns dias, após período de adaptação, intercalar trechos trotando com caminhadas, até perceber que já é possível sustentar períodos mais prolongados correndo”, descreve.

O que todos concordam é que o maior inimigo de quem começa a se exercitar está dentro de cada um. Vencer a inércia e evitar criar obstáculos faz parte de uma mudança de mentalidade de hábitos, em prol de uma vida mais sustentável. Quem ignorou a chuva no sábado de manhã e saiu para correr já entendeu a importância destas atitudes.