Por Jessica Krieger

Há mais de dez anos, o empresário Walfrido Neto começou a questionar suas escolhas de consumo e o real impacto que elas tinham sobre o meio ambiente. Tornou-se vegetariano, passou a recusar produtos testados em animais e começou a utilizar a bicicleta como principal forma de transporte. Junto com sua sócia e esposa, Renata Soares, fez uma verdadeira revolução no estilo de vida: passou a adotar atitudes práticas no dia-a-dia, como a escolha de alimentos orgânicos, economia de água e energia elétrica, a separação do lixo, entre outras ações que protegem a natureza. “Vejo essa alteração como um projeto contínuo e uma mudança de ponto de vista mesmo. Enxergar que a riqueza de uma cachoeira ou um rio limpo é maior que de uma casa com piscina. Pensar menos em ter um ‘carrão’ e mais em poder andar a pé pela cidade”, pontua Neto.

Em 2006, procurando alternativas para o uso de sacolas plásticas, começaram a produzir suas próprias ecobags. Hoje, a empresa Ecobag.com.br é uma das pioneiras na confecção de sacolas ecológicas no país, com a fabricação de bolsas de algodão cru e juta. “Estamos fazendo testes com tinturas naturais e sempre buscando novas matérias-primas e produtos que tenham um cunho ecológico. Por isso, nosso público-alvo são empresas com essa consciência e também pessoas comuns que estão em busca de sacolas alternativas para carregar suas compras sem plástico”, explica.

Assim como o casal, milhares de pessoas em todo o mundo estão mudando seus hábitos em prol do meio ambiente. Pequenas atitudes, como a troca de sacolas plásticas por ecobags, fazem toda a diferença. Muito mais que uma simples bolsa, a ecobag alia o conceito de consumo sustentável com o objetivo de diminuir o descarte das sacolas de plásticos e, consequentemente, amenizar o impacto ambiental que essa ação causa na poluição de oceanos, leito dos rios e também no entupimento de bueiros que provocam enchentes nas cidades. Além disso, essas sacolas plásticas são fabricadas a partir de derivados de petróleo ou gás natural, dois recursos não renováveis na natureza, e demoram de 100 a 500 anos para se decompor.

Ecobags viraram sinônimo de respeito ao meio ambiente (Foto: Divulgação)

Ecobags viraram sinônimo de respeito ao meio ambiente (Foto: Divulgação)

“A ideia é abolir não só os sacos plásticos, mas os vários saquinhos e embalagens que vamos acumulando ao longo de um passeio ou de um dia de compras. Por isso, essa bolsa especial também tem sido chamada de ‘second bag’, ou segunda bolsa”, afirma Tatiana Gname, sócia da empresa Bébé Sucré, que criou neste ano a Eco-Baby Bag para as mamães – peça confeccionada com algodão rústico que tem na durabilidade sua principal característica. Essa foi a primeira linha de ecobags que a empresa lançou, mas segundo Tatiana, era algo que queria desde o início da marca, já que ela mesma é adepta da “second bag” há alguns anos. “Saio apenas com minha bolsa e uma sacola de lona para as compras. Recuso sacolas e embalagens plásticas e vou colocando tudo na bolsa. As compras têm que acabar quando o espaço da bolsa acaba“, conta.

Muito antes do lançamento da ecobag pela Bébé Sucré, a inglesa Anya Hindmarch apresentou uma bolsa simples de tecido, com os dizeres “I´m not a plastic bag” (Eu não sou uma sacola de plástico). No meio da sua coleção exclusiva de unidades que custam em média mil dólares, foi esta simples criação de apenas 15 dólares que realmente chamou a atenção. Depois de aparecer nas mãos das estrelas de Hollywood na festa da Vanity Fair, em 2007, os 20 mil exemplares postos à venda foram tão poucos que a singela ecobag passou a ser negociada em leilões de internet pela bagatela de 600 dólares. Ela fez o mundo da moda parar e pensar sobre o consumo desenfreado das sacolas de plástico e, mais do que isso, abriu precedentes para inúmeras grifes como Stella McCartney e Louis Vuitton também desenvolverem produtos deste tipo para substituir o plástico nas compras em feiras, lojas e supermercados.

No Brasil, essa onda não demorou a chegar. No mesmo ano, foi realizada em São Paulo a exposição “Eu não sou de Plástico”, que também visitou outras capitais brasileiras. Na ocasião, estilistas desenvolveram ecobags diferenciadas para conscientizar a população a substituir as sacolinhas de plástico por bolsas de compras reutilizáveis. No total, foram 120 bolsas criadas por grandes nomes da moda nacional como Alexandre Herchcovitch, Carlos Miele, Huis Clos, Juliana Jabour, Isabela Capeto e muitos outros. A ação ganhou até um livro, o “Ecobags: Moda e meio ambiente”, da jornalista Lilian Pacce.

O vilão plástico
Além das grifes, os principais supermercados do país também tentam investir na substituição das sacolas plásticas por ecobags. Isso porque os números de consumo dessas sacolinhas no Brasil e no mundo são alarmantes: mais de 500 bilhões de unidades utilizadas por ano no planeta – um milhão por minuto. Os brasileiros, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), consomem 12 bilhões de sacolas por ano, ou seja, um bilhão por mês. Essas sacolas, que surgiram no final da década de 50 como orgulho das empresas que podiam imprimir suas marcas para os consumidores levarem para casa, viraram verdadeiros vilões do meio ambiente. Hoje, essas grandes redes repensam suas estratégias de sustentabilidade, apostando em alternativas ecologicamente corretas. No Paraná, Condor e Muffato aderiram às sacolas feitas de plástico oxibiodegradáveis, com aditivo químico que acelera o processo de decomposição. Já o Pão de Açúcar iniciou a comercialização de ecobags com estampas exclusivas em todas as lojas da rede, sempre incentivando os clientes a trocar as sacolas plásticas pelas bolsas com funcionalidade e estilo.

Para apoiar a causa, em meados do ano passado, o Ministério do Meio Ambiente criou a campanha “Saco é um saco”, em parceria com o Wal Mart, com o objetivo de reduzir o consumo das sacolas de plástico. O hipermercado reduziu o uso em 10% somente em 2009, o que significa 50 milhões de sacolas plásticas. Antes da campanha, em 2008, a empresa lançou uma campanha inédita no varejo brasileiro, que dá ao cliente crédito por sacola não utilizada. Com abrangência inicial nas lojas do Nordeste e Sul do país, a ação já tirou do meio ambiente mais de 13,5 milhões de sacolas e concedeu mais de 405 mil em crédito para os consumidores. O Wal Mart também oferece sacolas retornáveis mais baratas, confeccionadas em algodão cru e com capacidade de suportar até 35 quilos. Com isso, já vendeu mais de dois milhões de ecobags. Um passo importante para uma rede que consome 1,4 bilhão de sacolas plásticas por ano.

A contabilista Tábata Kotowiski, de 31 anos, passou a prestar mais atenção nas ecobags depois de ver um modelo no catálogo de uma grande empresa varejista. Resolveu comprar. A princípio, não por questões de responsabilidade ambiental. “Na minha cidade [Navegantes, SC], vejo pouquíssimas pessoas usando uma ecobag. No supermercado, as pessoas acham estranho quando nego a sacola plástica e sempre tenho que sinalizar que não preciso delas. Por aqui, o hábito das ecobags não existe. Ao contrário de Xanxerê”, diz Tábata, referindo-se à cidade no oeste catarinense onde a população praticamente aboliu o uso de sacolas plásticas fornecidas pelos supermercados. Elas foram substituídas por peças retornáveis, produzidas em parcerias com as empresas da região. “Acredito que as pessoas têm uma visão distorcida sobre contribuir para a preservação do meio ambiente. Acham que somente grandes ações fazem a diferença. Discordo plenamente. O simples fato de escolher sair com uma ecobag para fazer as compras na padaria da esquina contribui para a melhoria do ambiente sim”, completa.

Muito além da moda

O estudante Caio Martins e sua coleção de ecobags (Foto: Acervo pessoal)

O estudante Caio Martins e sua coleção de ecobags (Foto: Acervo pessoal)

As ecobags são acessórios que se tornaram indispensáveis, pois não agridem o meio ambiente, já que não são feitas de plástico e, portanto, podem ser reutilizadas. Viraram it-bags! Hoje, é fácil encontrar pessoas que têm um, dois, dez modelos diferentes de bolsas ecologicamente corretas, que podem ser usadas também para compor um visual despojado no dia-a-dia. Para o estudante pernambucano Caio Martins, que criou o blog PREA para discutir o tema sustentabilidade, o uso das ecobags transcende modismos atuais, mas as peças assinadas por estilistas e grandes marcas estimulam a compra do produto. Não necessariamente seu uso. “Cada vez mais estão sendo criadas bolsas retornáveis de diferentes modelos, cores, tamanhos, com estampas atrativas. Mas esse fato não é garantia de utilização diária, principalmente na hora das compras, mas é um começo“, explica. Para atualizar o blog, Caio começou a pesquisar sobre o tema e, logo que entendeu os graves problemas causados pelo uso desenfreado de sacolas plásticas, adotou a ecobag. Mesmo assim, acredita que falta conscientização da maioria das pessoas.

Por outro lado, pessoas como o paulista Guilherme Alpendre não precisaram mudar radicalmente suas atitudes em prol da natureza. Elas vieram de casa. Quando era pequeno, percebia que seus pais utilizavam sacolas imensas de lona para ir à feira ou fazer pequenas compras no mercado. Influenciado pela família, em especial a mãe dona Neusa, ele se acostumou a fazer compras usando a “sacola de pano”, como sempre diz. Os colegas de trabalho já conhecem a preferência de Guilherme pelas ecobags: dia desses, comentou com o amigo Luiz Tasso que não poderia ir ao mercado porque tinha esquecido a bolsa em casa. Em outra ocasião, os amigos que levaram sacolas plásticas com cerveja para a casa do jornalista ficaram surpresos quando o anfitrião pediu que eles levassem embora as sacolas quando saíssem. Depois da festinha, é claro. “Passei a calcular melhor minhas idas ao mercado e a dimensionar minhas compras ao tamanho e capacidade das minhas sacolas de pano. Tenho duas, ambas assinadas e cerzidas pela minha mãe”, conta.

Dicas para usar corretamente ou não usar sacolas plásticas
- No supermercado, pegue apenas a quantidade de sacolas plásticas adequada às compras, não em excesso.
- Sempre reutilize sacolas plásticas em casa. Se não reutilizar, encaminhe para reciclagem.
- Descubra alternativas para a sacola plástica, como a sacola durável. Procure carregar as pequenas compras, como revistas ou caixas de remédios, na própria bolsa ou na mochila.
- Para as compras maiores, além da ecobag, são boas opções o velho carrinho de feira ou caixas de papelão que o próprio supermercado pode oferecer.
- Reduza a quantidade de lixo que você produz em casa. Assim, precisará de menos sacos plásticos para descartá-lo.
Fonte: Instituto Akatu