Por Carolina Gabardo Belo

Esta é uma cena comum. As crianças voltam da escola cheias de novidades para contar sobre como foi o dia em companhia dos colegas. Na hora de fazer as lições de casa, recebem a ajuda dos pais e esperam ansiosas pelo fim das tarefas para poderem brincar. Nos últimos tempos, a preocupação com o meio ambiente adicionou a esta rotina uma importante responsabilidade. Tudo começa na sala de aula, mas toma grandes proporções fora dos muros da escola.

A engenheira agrônoma Débora Cristina Maia já sente na pele esta mudança. Aos sete anos, sua filha, Ana Carolina Maia Nogueira, é a grande responsável pelo controle do consumo de água na casa. “Ela sempre fala ‘fecha a torneira senão vai acabar a água do planeta’, ou então pede pra gente fazer xixi no banho para economizar a descarga”, conta. O cuidado de Ana Carolina também se estende ao lixo. A estudante faz questão que todos separem o material e não deixa que ele seja jogado nas ruas. “Ela cobra bastante”.

Ana Carolina cobra da mãe Débora cuidados com o meio ambiente (Foto: Valéria Bini)

Ana Carolina cobra da mãe Débora cuidados com o meio ambiente (Foto: Valéria Bini)

Mesmo com as orientações sempre dadas em casa, Débora percebeu que um projeto de meio ambiente desenvolvido na escola onde Ana Carolina estuda acentuou os cuidados da menina. Durante todo o ano passado, ela separou materiais recicláveis para a produção de brinquedos com sucata. Além da atividade na escola, o projeto contou com a participação da família, que também colocou a mão na massa. Na casa de Ana Carolina, o resultado foi um palhacinho, feito com garrafa de água, palha, bolas e copos plásticos.

O brinquedo foi apresentado para toda a escola e para a comunidade em uma espécie de feira de ciências. “Aprendi muitas coisas e que é importante cuidar do planeta. Em casa, falei para não desperdiçar a água e jogar o lixo no lixo”, conta a menina. Mas engana-se quem pensa que apenas Ana Carolina cuida do meio ambiente na casa. Beatriz, de 1 ano e 8 meses segue o exemplo da irmã e já tem consciência de sua responsabilidade. Ela vai sozinha jogar no lixo as cascas das frutas que consome. “Ela vê o que a mais velha faz e leva também. Acho que só não age dessa maneira quem não quer, pois as crianças são constantemente estimuladas para isso. Minha geração não tinha essa preocupação”, lembra Débora.

O mundo em uma horta
A comparação é simples: assim como o nosso planeta, uma horta é um completo ecossistema. No contato com os animais, as plantas, a terra, o ar, a luz e com todas as energias, os estudantes percebem como as nossas ações interferem no todo.

Crianças percebem com horta que toda ação contra o meio ambiente intefere em todo o planeta (Foto: Divulgação)

Crianças percebem com horta que toda ação contra o meio ambiente intefere em todo o planeta (Foto: Divulgação)

Esta é a primeira e principal lição do projeto “Horta Viva”, criado e desenvolvido pelo educador Danilo Netto, que dá aulas no Rio de Janeiro. A partir do cuidado com a horta, as crianças e adolescentes discutem a relação do ser humano com o meio ambiente. “É a sensibilização para uma visão diferenciada, que é o nosso principal desafio. Assim quebramos o primeiro paradigma, de que tudo está a serviço da gente. No contato com a horta eles percebem que isso não é verdadeiro”, explica o professor. Ele ressalta que o ser humano faz parte do sistema e não está desconectado do resto. “Na horta eles percebem que está tudo conectado. Se a gente mexe em um ponto, mexe no todo e precisamos ter responsabilidade para isso”.

Esta discussão abre caminho para importantes questões que relacionam nossos hábitos ao meio ambiente e à sustentabilidade, como os resíduos orgânicos, cuidado com a água, consumo consciente, alimentação saudável, entre outros. Além disso, o próprio contexto da educação e aprendizagem é fortalecido, uma vez que alia conhecimento de diversas áreas. “Cria uma relação diferente entre a criança e a escola”, conta Danilo.

A professora de Biologia Cláudia Almeida Pires também conseguiu mostrar aos alunos como uma simples atitude interfere em todo o meio ambiente. No ano passado, ela lançou um desafio aos estudantes do 1º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Monsenhor Antônio de Pádua Santos, na cidade de Afogados de Ingazeira, sertão de Pernambuco. A questão foi simples, “vocês sabem quantos copos plásticos usam por dia?” À medida que os estudantes responderam, ela apresentou uma média de quanto os alunos consumiam na escola.

“Digamos que todos usem três copos por dia, são quantos alunos em cada sala? Em média 40. Então, se cada sala usa 120 copos por dia e se temos seis turmas… Um aluno gritou, ‘720!’ Todos ficaram admirados. ‘É muito copo’, eles diziam”, lembra Cláudia da conversa que teve com seus alunos. E não parou por aí. “Então temos 3,6 mil copos por semana, aproximadamente 14,4 mil copos por mês. Pedi para que eles imaginassem como seria essa pilha de copos no pátio. Perguntei se nós poderíamos estar sentados ali com todos aqueles copos no meio e como eles seriam descartados”.

Estudantes produzem sabão a partir de óleo no sertão de Pernambuco (Foto: Divulgação)

Estudantes produzem sabão a partir de óleo no sertão de Pernambuco (Foto: Divulgação)

Foi assim que começou o projeto “Do óleo ao sabão, uma mão lava a outra mão!”. Da discussão sobre resíduos sólidos, Cláudia e a professora de Química passaram a refletir com os jovens sobre a poluição da água por óleos. Elas apresentaram uma alternativa a esta agressão ao meio ambiente, a produção de sabão com óleo reutilizado.

Os estudantes participaram de todo o processo para a produção do sabão e ainda fizeram pesquisas sobre os impactos do óleo no meio ambiente, decomposição dos resíduos e também possíveis variáveis dos experimentos, como coloração e aromatização dos produtos. “Eles devem perceber que boas ideias, muitas vezes simples, podem ajudar num plano macro, numa esfera de mundo”, comemora a professora. Os alunos passaram a recolher o óleo de suas casas para a confecção do sabão e o projeto para este ano é ajudar asilos da cidade com a produção.

Iniciação científica desde a educação infantil
No Colégio Nossa Senhora do Sagrado Coração, em Curitiba, os estudantes apresentaram como o ser humano pode conviver com o meio ambiente de maneira sustentável. Para isso, assumiram junto com os professores o papel de pesquisadores e se dedicaram à elaboração de projetos, pesquisas empíricas e defesa de seus trabalhos em bancas de qualificação.

No Projeto de Iniciação Científica do Colégio Nossa Senhora do Sagrado Coração (PICSC), estudantes da Educação Infantil ao Ensino Médio trabalharam ética, empreendedorismo e sustentabilidade. Cada tema e metodologia de trabalho foi desenvolvida de acordo com a idade dos estudantes. “Durante todo o ano eles percebem que a produção de conhecimento é um assunto sério, com metodologias específicas e apropriadas. Eles pensam em que vão fazer, como vão passar este conhecimento e sempre cuidando do planeta”, afirma o coordenador pedagógico, Flávio Fernando de Souza. Entre os projetos, iniciativas de reciclagem do lixo e reutilização de materiais, educação alimentar, sustentabilidade no trânsito e dicas para uma vida sustentável.

Pequenos grandes aliados
Professores e especialistas são unânimes em dizer que os jovens são os maiores aliados no cuidado com o meio ambiente e na multiplicação de iniciativas sustentáveis. “Não é preciso fazer muita coisa para que eles se envolvam, pois eles pegam isso logo de saída”, afirma a coordenadora-geral de Educação Ambiental do Ministério da Educação (MEC), Raquel Trajber.

O envolvimento em atividades práticas potencializa o comprometimento dos jovens, que já são sensíveis a estas questões. “Quando o aprendizado é colocado de maneira prática, os alunos conseguem observar as alterações que o meio sofre sob a ação do homem e com isto passam a ter atitudes mais colaborativas com o meio, procurando medidas que possam diminuir os danos destas ações”, explica o coordenador Flávio Souza. “Sou testemunha disso, as crianças estão ávidas por ensinamentos. Elas também são multiplicadoras, têm reações quando as atitudes não condizem com a realidade, elas denunciam, ficam em cima mesmo”, conta o educador Danilo Netto.

A diretora de Educação e Cultura do Instituto Ecofuturo, Christine Castilho Fontelles, ressalta ainda que este é um período propício para trabalhar valores com os estudantes. “Desde a primeira infância é importante trabalhar esta temática, já mostra um novo jeito de olhar o mundo. É preciso incutir este valor na rotina, diariamente, desde muito cedo.”

E para que tudo dê certo, os professores têm participação indispensável neste processo. “Para discutir de forma encantadora com os estudantes, é preciso estar encantado, sair da zona de conforto e ir para a zona de conflito, para gerar mudança”, garante Christine. Danilo ressalta, no entanto, que a formação dos professores ainda é um desafio. “São necessárias políticas públicas. Precisamos de professores pensantes e reflexivos para levar os temas aos alunos”, afirma.

Toda e qualquer iniciativa realizada contribui para os cuidados com o meio ambiente e a sustentabilidade. “Está tudo junto, ao mesmo tempo. Qualquer ação realizada no local tem repercussão no global. Por isso, precisamos propiciar o conhecimento, para mudanças efetivas que vamos fazer”, afirma Raquel.
Uma das maiores dificuldades no trabalho sobre meio ambiente e sustentabilidade é, no entanto, sensibilizar a população de que qualquer ação (boa ou má) reflete no contexto. “Precisamos trabalhar como um todo”, alerta Danilo.

Prêmio Ecofuturo
O projeto “Do óleo ao sabão, uma mão lava a outra mão!” e outras sete iniciativas foram finalistas da primeira edição do Prêmio Ecofuturo de Educação para a Sustentabilidade. Com base no livro “A vida que a gente quer depende do que a gente faz”, do Instituto Ecofuturo, professores criaram projetos sobre educação, preservação ambiental, problemas sociais e outras questões que envolvem a sustentabilidade do planeta. Estes temas também são comuns nos concursos de redação promovidos pelo instituto, que são direcionados a estudantes de todo o Brasil. “Não é muito comum relacionar a leitura e a escrita para uma crítica ao modelo de vida que a gente tem, mas a palavra é a ferramenta de mudança”, afirma Christine Castilho Fontelles, diretora de Educação e Cultura do instituto.

O prêmio valorizou as iniciativas que envolveram os estudantes, de acordo com suas realidades e com potencial multiplicador. “O objetivo foi contribuir para o professor libertar seu senso de sustentabilidade, ele precisa ser teimoso e insistente. A proposta era fazer conexões da sala de aula com a comunidade, pois não vamos vencer o desafio sozinhos”, destaca Christine. Em 2010 será realizada a segunda edição do prêmio e no ano que vem é a vez do concurso de redação, que acontece a cada dois anos.