Por Cristiane Marsola

Com a enxurrada de novidades tecnológicas que aparecem a todo momento, surge também um problema que muitas vezes nem é percebido pelos ávidos consumidores: o lixo eletrônico. Nem sempre é tarefa fácil descobrir o que fazer com os aparelhos antigos, obsoletos, sem conserto, que servem apenas para ocupar espaço em casa. Por sorte, muitas entidades e empresas estão se dando conta que é preciso tomar uma atitude imediata e têm investido no tema.

O problema é que muita gente não tem ideia de que o material de que são feitos os aparelhos eletrônicos pode ser reutilizado. Uma pesquisa realizada em pela Nokia em 13 países, em 2008, mostrou que 74% dos usuários de celular nem pensam em reciclar seus dispositivos e quase metade da população ignora que seja possível fazer isso. “Essa questão precisa ser mais divulgada. Cabe às empresas divulgarem que fazem esse tipo de reciclagem”, diz Rony Vainzof, vice-presidente do Conselho Superior de TI da Fecomercio.

A jornalista Daniela Barile é uma das pessoas que teve dificuldade de encontrar onde descartar os aparelhos. “Guardei um celular por mais de cinco anos até achar um bom local. Procurei saber se o lugar era realmente respeitável e saber o que eles faziam com o lixo”, conta.

Além da vantagem de minimizar a agressão ao meio ambiente, reciclar o lixo eletrônico traz benefícios econômicos. O estudo da Nokia mostrou que, se todos os três bilhões de usuários no mundo devolvessem pelo menos um aparelho em desuso, seria possível economizar 240 mil toneladas de matéria-prima e reduzir a emissão de gases equivalente a de quatro milhões de carros.

No Brasil, várias empresas já desenvolvem projetos de reciclagem do lixo eletrônico para minimizar o impacto do negócio no meio ambiente, mas a realidade está longe de ser ideal. E mais, quem recolhe o lixo eletrônico ainda exporta os componentes para separação, já que é difícil de encontrar quem faça esse trabalho. “Aqui no Brasil isso ainda é um problema porque as placas dos computadores, que são mais lucrativas para a reciclagem por causa dos metais preciosos, têm de ser exportadas para Bélgica, México e Cingapura para serem recicladas”, diz Tereza Cristina Melo de Brito Carvalho, diretora do CCE (Centro de Computação Eletrônica da Universidade de São Paulo), onde acaba de ser criado o Cedir (Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática).

Por enquanto, o Cedir atende apenas a própria USP, mas a intenção é, já em abril, abrir as portas para que a comunidade possa fazer seu descarte. Durante a fase piloto, só dentro do CCE, foram arrecadadas cinco toneladas de lixo eletrônico. Para poder desenvolver o trabalho, Tereza foi a várias empresas de reciclagem para aprender a separar os componentes corretamente e ter um maior aproveitamento do lixo. “A gente descobriu, por exemplo, que separar os plásticos apenas por cor, como estávamos fazendo, não era suficiente, também era preciso diferenciar os diversos tipos”, explica a professora. O material separado no Cedir é destinado às empresas de reciclagem no Brasil já classificado por tipo, o que ajuda a melhorar o preço na mercadoria.

Além do trabalho de reciclagem, o Cedir também recupera os computadores antigos que ainda podem ser utilizados. Ao chegar no projeto, o aparelho passa por uma triagem e, se possível, é consertado e encaminhado para uma instituição. A intenção do projeto é criar um laboratório de sustentabilidade. “Queremos oferecer treinamento para pessoas com baixo poder aquisitivo para que elas possam conseguir um emprego depois que participarem do projeto”, diz. O que era sucata passa a ter duas funções: treinar novos profissionais e voltar a ser um computador usável.

A Fundação Pensamento Digital, em Porto Alegre (RS), faz um trabalho semelhante: recolhe computadores, conserta-os e distribui entre as entidades parceiras. “Nós só recebemos micros com processadores acima de Pentium III. A nossa preocupação é com o uso. Depois de feito o conserto nas máquinas doadas, elas são encaminhadas para as ONGs”, explica Ana Alves, coordenadora do projeto Rede de Cooperação Digital da fundação. O que não pode ser aproveitado é encaminhado para a reciclagem.

Como parte da cadeia produtiva, a fundação capacita educadores sociais para que eles ensinem computação nas entidades que recebem os computadores. “A inclusão digital não se faz só com computadores. A gente tem uma linha metodológica pedagógica”, conta Ana. A fundação existe desde 2001. Até hoje 283 organizações já foram beneficiadas com 2.170 computadores e foram formados 768 educadores sociais. Para este ano, a fundação quer começar a oferecer cursos para o público final, focado em montagem de computadores.

Lixo eletrônico em números (Fontes: Nokia, Dell e Pike Research)

Lixo eletrônico em números (Fontes: Nokia, Dell e Pike Research)

Peça de museu
Outra opção para quem se preocupa com o destino final de seu lixo tecnológico é doar os aparelhos antigos para museus. O Museu do Computador, que deve ser reinaugurado em março, em São Paulo, tem como objetivo reunir aparelhos obsoletos para contar a história da evolução deles ao longo do tempo. “Em 1998, percebi que se ninguém guardasse essas peças, iria tudo para o lixo. Tenho peças raras. Ninguém sabe o que aconteceu aqui no Brasil com os eletrônicos”, diz o fundador e curador do museu, José Carlos Valle. O curador explica que ao receber uma peça antiga, ele mesmo faz a catalogaão, já que trabalha na área desde os anos 60. “Eu vivi essa história. Quero até escrever um livro sobre isso”, conta. José tem o sonho de levar uma caçamba de lixo eletrônico para cada condomínio. “Sempre tem as outras lixeiras: metal, vidro, papel e plástico, mas não de eletrônicos. No meu condomínio já estou fazendo isso”.

O Miti (Museu de Informática e Tecnologia da Informação) é outra opção para o descarte. A Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) foi criada no ano passado. Além do museu, o projeto abriga também uma cooperativa, a Coopermiti. “Somos os primeiros a reciclar o lixo eletrônico no Brasil. Fazemos uma triagem, recuperamos o que é possível e, o que não é, fazemos a desmontagem completa de todos os componentes”, explica Alex Luiz Pereira, presidente do Miti e da Coopermiti. A entidade também faz capacitação profissional para dar oportunidade de trabalho a pessoas de baixa renda.

O que fazer com o celular?
Na iniciativa privada há bons exemplos de como começar a trabalhar a sustentabilidade. A Claro tem um projeto de reciclagem desde fevereiro de 2008 para recolher os celulares nas lojas da operadora. Ao todo, são 3,5 mil pontos de coleta de tudo o que compõe o celular. Sabendo do pouco conhecimento da população a respeito do reuso do material dos aparelhos, a empresa fez uma divulgação maciça do Claro Recicla. “O número de doações quadruplicou. Com isso ficou clara a falta de informação que havia”, Carime Kanbour, vice-presidente do Instituto Claro. Por enquanto, a empresa ainda não fez um levantamento, mas acredita que, pelo retorno informal que tem recebido, o programa tem agradado os clientes. “Um dos facilitadores é que a pessoa pode só deixar o celular na urna, não precisa preencher nenhum papel”.

A Nokia também mantém postos de coleta de celulares. “A Nokia tem serviço de reciclagem há muito tempo e no mundo inteiro”, informa Jô Elias, diretora de comunicação da Nokia. A marca usa parte dessa matéria reciclada em seus aparelhos. “O processo de reciclagem não é tanto economizar financeiramente, mas poupar recursos materiais”, diz. De cada aparelho descartado é possível reciclar cerca de 80% do material. De acordo com a executiva, a reciclagem é necessária para a manutenção do negócio. “É um mercado de volume muito grande, não podemos ficar jogando os aparelhos fora. Vendemos 42 milhões de celulares por ano no Brasil e desses 80% são para substituir os velhos”.

A Garantech, empresa de garantia estendida do grupo Itaú Unibanco, iniciou em janeiro o programa Garantia Sustentável Garantech para dar um destino correto aos aparelhos que ficavam sem conserto nas assistências técnicas. Por enquanto são 29 pontos de coleta na Grande São Paulo. Os aparelhos serão desmontados e cada material será encaminhado à reciclagem correta. Os componentes eletrônicos, que são os mais tóxicos, serão triturados e, depois de processos químicos, serão usados na indústria de cerâmica e metalurgia.

Além de reciclagem dos componentes dos aparelhos e da doações a instituições, outra forma de não causar impacto descartando os eletrônicos no lixo comum é repassar os aparelhos que ainda funcionam para amigos e parentes. A jornalista Daniela Barile tem esse costume de se preocupar com o destino do que descarta. “Eu já levei celulares, baterias e pilhas para postos exclusivos de reciclagem. Também faço doação dos meus celulares que ainda estão em bom estado para pessoas que precisam, ou que pensam em trocar. Sei que as peças podem ser reutilizadas em outros aparelhos e, com isso, descarta-se menos lixo”, fala.

O realizador de audiovisual Fabio Hofnik também sempre dá um fim adequado para seus aparelhos eletrônicos. “Já doei computadores para escolas, entidades e um antigo museu de eletrônica. Nem foi tão difícil encontrar onde doar, pesquisei pela internet e rapidamente encontrei o museu”, sugere.

Saiba mais
www.cce.usp.br
www.lixoeletronico.org.br
www.miti.org.br
www.museudocomputador.com.br
www.pensamentodigital.org.br