Por Carolina Gomes

Escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore. Muitos acreditam que não se pode passar por essa vida sem realizar esses três desafios. O problema é que, em tempos de “apertamentos” que mal têm espaço para um vasinho de flor na janela, plantar uma árvore parece ser uma realização para poucos. Mas a boa notícia é que dá para dar uma adaptada no ditado popular, insistir e deixar a menor das quitinetes com jeitinho de casa da vovó. É o que muita gente vem tentando ao colocar a mão na terra e criar suas próprias hortas em casa.

Foi o desafio que encarou Denise Rangel, professora de literatura e blogueira do Rio de Janeiro. “Eu não acreditava muito que iria conseguir, sempre tive mão pesada para plantas e morava em apartamento”, revela. Ela relatou todos os altos e baixos da experiência em três blogs. Denise diz que no começo foi fácil e cerca de um mês depois as plantinhas começaram a germinar. Mas, passados alguns meses, as mudas começaram a morrer. “Foi pura falta de prática. Por exemplo, coloquei sementes de tomates-cereja demais em um único vaso. Meu tomateiro ficou sufocado com tantos ´irmãozinhos´ perto dele”, conta a professora de 52 anos.

Alternativa para ter horta em apartamento (Foto: Divulgação Hortinha)

Alternativa para ter horta em apartamento (Foto: Divulgação Hortinha)

O novo desafio foi a mudança constante de casas. Ela mudou de apartamento duas vezes e levou as jardineiras com as hortaliças. “Elas estranhavam o novo local e não resistiam. Mas eu não desistia. Replantava tudo outra vez”. Agora Denise está há três meses no novo apartamento e dá tempo ao tempo para que as novas mudas se desenvolvam. “O coentro, a salsinha e a alfavaca já deram o ar de sua graça. As outras plantinhas ainda estão em fase de adaptação”, diz otimista.

Denise tem um incentivo a mais para insistir na sua horta. Clarisse, sua neta de quatro anos, adorou a ideia de mexer na terra e colher os tomatinhos direto do pé. “Ela se diverte e eu mais ainda! A bagunça é total, mas vale mais que uma consulta ao psicanalista”, comemora.

E Denise não é a única a citar os benefícios da horta para o corpo e a mente. É o que conta também Adelaide Domingues, uma feliz dona de casa que se “autoaposentou” há alguns anos. Ela e o marido se mudaram de um apartamento em Curitiba para uma casa em Colombo, na região metropolitana da capital paranaense. O problema é que a casa tinha um quintal grande nos fundos, mas totalmente cimentado. Na frente, um jardim gramado. Como fazer a horta então? “Não queríamos plantar em vasos. Na nossa cabeça aquilo não tinha fundamento, já que estávamos em uma casa. Olhei para o gramado do jardim e falei para meu marido: ´não comemos grama, então vamos arrancar tudo e fazer nossa horta aqui´. Ele concordou e assim fizemos”, confidencia Adelaide, de 51 anos.

Hoje, eles têm pés de alface, quiabo, jiló, pepino, cebolinha, salsa, cebola, alho, tomilho, manjericão, orégano, pimenta, tomate e cereja samambaia. “No curto perodo em que estamos aqui, já plantamos e colhemos muito. Temos o maior prazer em cultivar e poder distribuir para a família e vizinhos”, comemora. E todo esse prazer parece ser contagiante. “Até uma irmã que nem gostava de plantas, já está cultivando seus temperinhos. Os vizinhos ficam encantados depois de nos acharem meio malucos por tirar o gramado e desmanchar o jardim. Quando plantamos alfaces, muitas pessoas que passavam por aqui paravam na grade para olhar”, acha graça Adelaide.

Nascida em Campinas, mas moradora da região de Curitiba desde 1967, Adelaide conta que muito do conhecimento que tem hoje sobre hortas vem das lembranças da infância. “Quando pequena eu observava o que minha avó e minha mãe faziam nas hortas e perguntava tudo. Guardei na memória muitos ensinamentos. Há coisas que sei intuitivamente, é como se esses conhecimentos tivessem vindo comigo”, conta ela.

Alternativa para casas com pouco espaço (Foto: Divulgação Hortinha)

Alternativa para casas com pouco espaço (Foto: Divulgação Hortinha)

São lembranças que têm acompanhado muitos outros integrantes dessa nova geração de apaixonados por hortas. Gerações que vieram depois da dona Onícia dos Reis Silva, de 72 anos. Com oito filhos e 15 netos, dona Onícia agora tenta ensinar a arte de plantar para os mais jovens. “Não tenho do que reclamar, é uma terapia para mim”, diz.

Dona Onícia participa de um projeto da Eletrosul, em parceria com prefeituras da região Sul e do Mato Grosso do Sul. A estatal cede os terrenos embaixo de linhas de transmissão de energia elétrica para que famílias que moram na região possam criar hortas comunitárias. A iniciativa evita a depredação, o acúmulo de lixo e o crescimento de árvores nas linhas. Em Curitiba, onde mora dona Onícia, a prefeitura estendeu o projeto para qualquer terreno baldio da cidade. Nesse caso, é necessária a autorização do dono da área. “Além de todo o treinamento, nós fornecemos novas mudas, adubos e fertilizante”, explica Hilda Carachenski, engenheira agrônoma da prefeitura.

Hoje são cerca de 1,2 mil hortas comunitárias na cidade. Enfermeira vinda do norte do estado, dona Onícia é uma das mais experientes das quase seis mil pessoas envolvidas nessas hortas. Seu lote é de dar inveja. Tudo plantado com o maior capricho e produzindo de vento em popa.

Encontrando soluções
Mas para sorte de quem não tem toda essa experiência, já existem profissionais que se dedicam exclusivamente a dar esse pontapé inicial para a criação de hortas em qualquer lugar. É o caso da arquiteta e urbanista Ana Souza que, há quase cinco anos, criou no Rio de Janeiro a empresa Hortinha. “Eu trabalhava com projetos e reformas, mas sentia falta de uma interação maior na vida dos meus clientes. Algo que provocasse uma mudança mais profunda e proporcionasse um resgate de valores antigos esquecidos na pressa e superficialidade que estamos vivendo hoje em grandes cidades”, conta. Ela então uniu a experiência que veio da infância, quando morava no interior cercada de verde, com a formação e passou a criar ambientes confortáveis e convidativos com hortas em locais inimagináveis, quase sempre muito pequenos.

Para quem não tem muita habilidade com as plantas, o ideal é começar pelas ervas. “Elas são mais simples de cultivar e o risco de errar é menor”, explica a arquiteta. “Iniciantes devem ir direto ao ponto. Ao invés de comprar sementes, prefira as mudinhas de plantas”, completa. Ana diz que é preciso tomar cuidado também com a mistura das ervas num mesmo espaço de terra. Para não ter prejuízo nem frustração, pode-se dividir as plantinhas em grupos: as que precisam de muita água e pouco sol (hortelã, erva cidreira e capim limão), as intermediárias (manjericão, manjerona, orégano, salsa, pimenta e cebolinha) e as que precisam de pouca água e muito sol (lavanda, alecrim e sálvia).

Ana diz que os três principais erros dos jardineiros de primeira viagem são a escolha do local, a quantidade de água e a adubação. Pelo menos três horas de sol por dia são fundamentais para a saúde das ervas e quem pretende plantar hortaliças precisa de sol pleno. “Aí surge a necessidade de criação de soluções diferentes porque às vezes esse sol só pega numa parede da varanda ou na janela da sala”, explica a arquiteta.

A rega é outro desafio. Ao mesmo tempo em que pode salvar, a água pode acabar com uma planta. É um exercício de observação diária da planta. A rega deve ser feita sempre em horários em que o clima esteja mais fresco, nunca com sol forte e sem encharcar demais o solo. “Plantas que não recebem água há muito tempo podem ser salvas, mas as que estão com excesso não, porque a raiz apodrece”, ensina Ana. Além disso, uma vez por mês deve-se afofar a terra e acrescentar uma camada de adubo, que pode ser húmus de minhoca, por exemplo. É preciso ainda retirar os matinhos que aparecem em volta da planta porque eles utilizam os nutrientes do solo e prejudicam o crescimento da erva. Depois do contato com as ervas, já fica mais fácil plantar outras coisas, como hortaliças. Mas, nesse caso, é preciso mais espaço e luz solar.

Seis mil pessoas trabalham em hortas comunitárias em Curitiba (Foto: Maurílio Cheli/SMCS)

Seis mil pessoas trabalham em hortas comunitárias em Curitiba (Foto: Maurílio Cheli/SMCS)

Com quase cem projetos na bagagem, Ana diz que não há desculpas para os moradores da cidade deixarem de colocar a mão na terra e esverdear os centros urbanos. Ela diz que a maior lição que tirou nesses anos de experiência foi com uma “cliente” de três anos de idade. Joana DaMatta ganhou sua hortinha da mãe, com sementeira, bancada de cultivo infantil e todos os acessórios. “Era um espaço de brincar totalmente dedicado ao plantio. E além de brincar muito com a terra, Joana começou a se interessar em saber a origem dos alimentos que comia e passou a presentear pessoas com mudinhas que ela mesma produzia. Foi um barato”, comemora.

Sem opção
O plantio de hortaliças e frutas no meio da cidade não é coisa nova. Começou depois da Revolução Industrial, na Europa, quando as pessoas migraram para as cidades e faltaram alimentos. E a escassez de verduras de qualidade foi justamente o que levou a veterinária Paula Garcia, de 42 anos, a criar sua própria horta quando se mudou para Venezuela. “Planto rúcula, alface, agrião, tomate, pimentão, couve de bruxelas e temperos. A paixão começou pela total ausência de hortaliças minimamente decentes no supermercado. Parece a nossa ‘xepa’ da feira aí do Brasil”, diz Paula.

E mesmo aqui no Brasil, onde a oferta de verduras é bastante razoável, os adeptos da horta em casa são unânimes em dizer que o sabor do que é plantado por eles é indiscutivelmente melhor. “Até mesmo cebolinha e salsinha têm outro sabor se comparadas com as que compramos em supermercado. A diferença é tanta que passamos a comer mais verdura e menos carne aqui em casa, o que acho ótimo para a saúde”, conta a dona de casa Adelaide.

As vantagens das hortas vão além do alimento e dos benefícios pessoais. Remete a questões como a necessidade de se reinventar as formas de produção e de consumo da sociedade atual. Falar em hortas urbanas é falar de permeabilização do solo e combate a ilhas de calor. Ao se incentivar a produção local do que se consome, menos caminhões cuspindo enxofre e monóxido de carbono precisam transitar da cidade ao cinturão-verde. Sem falar que os cinturões cada vez se distanciam mais das grandes cidades, sempre em expansão. Distância que também encarece o produto e aumenta o índice de desperdício no trajeto. Ao abraçar a ideia de deixar a selva urbana menos cinza e mais verde, cada um está dando uma grande contribuição para a qualidade de vida de todos.