Por Maria Fernanda Maia

Música é a arte de ordenar fenômenos acústicos para produzir efeitos estéticos. Em seus aspectos mais simples e primitivos, a canção é manifestação folclórica, comum a quase todas as culturas, sendo responsável pela transmissão de valores e histórias, espelhando particularidades étnicas determinadas. Ela tem várias funções. A artística é considerada por muitos sua principal, porém existem outras, como a militar, educacional ou terapêutica (musicoterapia) e religiosa. Em todas elas, o efeito e o poder de causar mudanças em quem ouve é o mesmo.

Ser sustentável pode estar por trás de ações simples como economizar energia e água, reciclar materiais, repensar o uso da matéria-prima e da embalagem dos produtos, além de transmitir essa ideia para as outras pessoas. E quando se tem como instrumento o microfone, essa busca pode contagiar multidões. Os artistas são ídolos de gerações que seguem seus hábitos e exemplos. E seus fãs os seguem porque os admiram e querem ser como eles. O Hope for Haiti Now uniu vários artistas solidários às vítimas do terremoto pedindo o apoio da população através de doações e arrecadaram mais de 60 milhões de dólares. Cantaram músicas comoventes para chamar a atenção do mundo. Pessoas que não tinham se tocado da gravidade da tragédia foram chacoalhadas por refrões cantados por seus ídolos.

“Se Sting anunciar que só toca guitarras feitas com madeira certificada e reflorestada, muitos seguirão seu exemplo”, profetiza a catarinense Alana. Nascida em família sem artistas, ela se mudou para São Paulo a fim de realizar seu sonho de ser cantora e compositora. Vegetariana desde criança, a artista explica que sempre teve hábitos de consumo consciente, preocupando-se com o lixo, com o desperdício de água e energia, e levar suas próprias sacolas ao supermercado para não usar as de plástico, ou ainda utilizar guitarras de madeira certificada.

Alana compõe e canta sobre o meio ambiente (Foto: Divulgação)

Alana compõe e canta sobre o meio ambiente (Foto: Divulgação)

Alana acredita que essas ações a diferenciam como indivíduo perante o coletivo. “Acho que minha contribuição maior é como artista, escrevendo e falando sobre a defesa do meio ambiente. E também através das minhas músicas, onde atinjo o ser humano através do amor. Salvando o ser humano, você salva o planeta”, pontua a cantora que acredita que a responsabilidade do artista deveria ser a conscientização aliada à diversão. “Se o artista tivesse a noção de sua responsabilidade além apenas do entretenimento em si, influenciaria sempre de forma positiva em prol de um mundo melhor”.

Várias personalidades pensam como Alana atualmente no Brasil e no mundo. Em shows, músicas, blogs, sites e letras, eles tentam chamar a atenção para o futuro do planeta. Alguns resolveram unir suas vozes e talentos para somar na multidão. O mais conhecido hoje no país é o Voluntários da Pátria, grupo de arte contemporânea organizado pelo líder do grupo Detonautas, Tico Santa Cruz, que trabalha a música como forma de conscientização sobre o papel de cada um na construção de uma sociedade melhor.

Por meio da poesia, da música, do teatro e do diálogo “de coração para coração”, esse grupo formado por Igor Cotrim, Glad Azevedo, Betina Kopp, Tico Santa Cruz, Tavinho Paes e Edu Planchêz, segue pelas cidades distribuindo abraços afetivos e reflexão. “Os nossos encontros acontecem em qualquer lugar em que há pessoas que querem trocar canções, dialogar sobre ética, justiça e humanidade. Não é um show, é um encontro de almas movidas pela emoção de ser gente determinada a evoluir dividindo”, explica um dos integrantes, Edu Planchêz.

Não só a música, mas toda forma de diversão aliada à conscientização pode contribuir para um planeta melhor. A música consegue reunir em um mesmo lugar milhares de pessoas de diversas origens em uma energia única cantando a mesma língua. “A música tem o poder de ultrapassar fronteiras, nos ensopar de mensagens, carregar em seu bojo poesia, elevar espíritos e ânimos, provocar rebeliões e revoluções, curar ou instigar a busca da cura. Juro que após atuar num show sendo uma espécie de mestre de cerimônias cantor-poeta, me sinto transformado”, acrescenta Edu, que também lidera uma banda carioca chamada Blake Rimbaud.

O futuro é agora
E se atualmente o maior compromisso da humanidade é com a conservação do planeta, a música também é uma grande aliada. Uma prova é o crescente número de festivais organizados ao redor do mundo que tem em suas programações conceitos socioambientais. “Os festivais exercem uma grande força pela quantidade de público que conseguem reunir. A partir disso, muitas coisas podem acontecer paralelamente: palestras, fóruns, materiais educativos e projetos especiais acabam ganhando uma força enorme com a grande exposição que os mega festivais tem”. Quem explica é Helio Pimentel, produtor executivo do Lupaluna, um festival diversificado que acontece anualmente em Curitiba, e que é considerado o maior evento jovem da história do Paraná tendo como um de seus pontos fortes a conscientização ambiental.

A proposta é realizar um espetáculo ecologicamente correto. Durante o evento (incluindo os períodos de montagem e desmontagem de sua infraestrutura), todas as pessoas envolvidas são instruídas para gerar o menor número possível de lixo. Além disso, todos os resíduos sólidos gerados são reciclados ou recebem um destino ecologicamente saudável, diminuindo o impacto no meio ambiente. “O Lupaluna se desenvolveu exatamente dentro do conceito: música e natureza fazendo eco”, completa Helio.

Festival Lupaluna: música e natureza fazendo eco (Foto: Daniel Castellano)

Festival Lupaluna: música e natureza fazendo eco (Foto: Daniel Castellano)

A primeira edição foi realizada em abril de 2008 e reuniu 41 mil pessoas durante dois dias de evento. No ano passado, em uma mega estrutura montada em uma área de 52 mil metros quadrados em meio à natureza, com seis lagos e área de mata preservada, o público vibrou com mais de 40 atrações nacionais e internacionais distribuídas em três palcos. “O nosso envolvimento com a questão ambiental já nos permitiu a aproximação com artistas internacionais envolvidos com a ecologia. Em 2009 tivemos a presença de Jason Mraz e Donavon Frankeinreiter, que são dois músicos super ligados aos movimentos ambientais. Nosso objetivo é termos sempre a participação de artistas internacionais que tenham essa visão”, acrescenta.

Apesar da característica de grande evento, o mais interessante em relação ao Lupaluna não é apenas a adoção de práticas ecologicamente corretas antes e durante sua realização. O “depois” também está em pauta. Por isso, uma série de medidas são realizadas, entre elas, estão a reciclagem do lixo gerada no evento, utilização de óleo diesel vegetal nos veículos, uso de materiais mais adequados do ponto de vista ambiental (desde o papel em que são impressos os flyers até a cenografia do evento), projeções de vídeos ambientais durante os intervalos dos shows, disponibilização de lixeiras adequadas para a separação do lixo e o incentivo à carona solidária, reduzindo a produção de monóxido de carbono pelo número elevado de carros.

Além de iniciativas pontuais, o Lupaluna se diferencia dos demais por realizar projetos ambientais permanentes. Um deles é o Condomínio Ecológico Lupaluna, uma ação que teve início na primeira edição. Com o objetivo de estimular a proteção e conservação de áreas naturais ameaçadas no sul do Brasil, o Condomínio se caracteriza pela adoção de reservas particulares do patrimônio natural, em especial as áreas de ocorrência de florestas com Araucária, Campos Naturais e Floresta Atlântica. As áreas adotadas são preservadas como modo de compensar a emissão de gás carbônico durante a realização do festival.

No início em 2008 foi adotada pelo projeto uma área remanescente de floresta nativa dentro da chácara onde o evento foi realizado, na cidade de Piraquara, região metropolitana de Curitiba. A proteção destas áreas naturais representa uma das estratégias mais efetivas para a conservação da biodiversidade, visto que nelas está uma riqueza de espécies que já não mais ocorrem em regiões devastadas.

Na segunda edição, o festival fez o pré-lançamento de um novo projeto, o Águas do Amanhã visando o resgate e revitalização da Bacia do Alto Iguaçu, que atualmente passa por um período de degradação. Através de um levantamento da Fundação Roberto Marinho e do Instituto GIA da Universidade Federal do Paraná, foi constatado que o rio Iguaçu em Curitiba e região metropolitana é o segundo rio mais poluído do Brasil, perdendo apenas para o rio Tietê, em São Paulo.

Sua nascente fica em Curitiba, próxima ao BioParque, onde foi realizada a edição do Lupaluna. Ele cruza todo o estado no sentido oeste, desembocando na cidade de Foz do Iguaçu, onde forma as famosas Cataratas, cartão postal do Paraná. Devido à falta de preservação, ele é considerado um rio morto em alguns trechos de sua extensão. O projeto vai promover uma mobilização nos mais diversos setores para reverter este panorama.

Ações sustentáveis no mercado musical
Um estudo financiado pela Intel e pela Microsoft afirma que música digital prejudica menos o meio ambiente do que as versões gravadas em CDs. O relatório divulgado ano passado, foi elaborado por pesquisadores da Universidade de Carnegie Mellon e da Universidade Stanford, e concluiu que comprar a versão digital de um álbum musical emite entre 40% e 80% menos carbono que adquirir o CD oficial.

A diferença de porcentagem é grande por causa das múltiplas possibilidades de contextos. Se o consumidor comprar a música, gravá-la em um CD virgem e colocá-lo dentro de uma caixa, ele terá emitido 40% menos CO2 que aqueles que compraram o CD pronto nas lojas.

Se, em outra ocasião, o consumidor apenas fizer o download da música em seu computador para escutá-la em outros dispositivos que não necessitem de um disco compacto, ele terá emitido 80% menos gás carbônico do que quem compra a versão física do álbum.

A música digital, no entanto, também pode ser prejudicial. Arquivos muito grandes que demoram para serem baixados acabam gastando muita energia e, assim, emitindo elevada quantidade de gás carbônico.

Comprar CDs em lojas online também não faz bem ao meio ambiente. Isso porque o transporte e a entrega de produtos comprados pela internet são feitos por meio de aviões ou caminhões, veículos que geralmente utilizam combustíveis fósseis e emitem muito gás carbônico.

O estudo orienta que se comprar o CD for absolutamente necessário, é mais ecológico, ir até a loja por um meio de transporte limpo, como bicicleta ou a pé. Nesses casos, a emissão de CO2 é praticamente equivalente a de músicas baixadas nos computadores e gravadas em CD depois.

O assunto é polêmico já que o download gratuito de músicas prejudica muito cantores e compositores. “Portais vendendo músicas acho ótimo. Mas baixar música de graça, para mim como compositora, é desesperador”, declara Alana. Resta agora esperar a mobilização das gravadoras para diminuir esse impacto apontado pelo estudo.