Por Jessica Krieger

Em tempos de desenvolvimento sustentável, os chamados três Rs – reduzir, reutilizar e reciclar – começaram a fazer parte do imaginário criativo de estilistas e designers de todo o mundo. Já não basta criar peças e acessórios com conceito diferenciado se não houver preocupação com o meio ambiente. Nos últimos anos, os criadores de moda perceberam que o processo de reutilização de matérias-primas, tecidos e aviamentos de coleções passadas poderiam ganhar releituras interessantes e modernas: foram desenvolvidas, então, coleções recicladas, com o reuso de resíduos têxteis e produtos que seriam descartados na criação de peças exclusivas.

O upcycling – termo utilizado para a reinserção de materiais que seriam jogados no lixo para criar novos produtos sem o processo de reciclagem – que transforma algo que está no fim de sua vida útil em artigos novos e com valor agregado é a palavra do momento no mundo fashion. Sacos de cimento viram carteiras e bolsas, como imaginou a equipe de desenvolvimento da Cavalera no início do ano; sacolas plásticas se transformam em peças rendadas exclusivas nas mãos da designer Laura Marsden; sobras de tecidos que marcaram a história da Prada ganharam formas de sapatilhas, bolsas e vestidos que dão vida nova ao material.

Estilista Isabela Capeto utiliza na passarela recidos reaproveitados de coleções passadas

Estilista Isabela Capeto utiliza na passarela recidos reaproveitados de coleções passadas

Na coleção Verão 2010 exibida na edição da São Paulo Fashion Week, em janeiro deste ano, a estilista Isabela Capeto mostrou peças inspiradas no pintor Robert Rauschenberg, com looks que traziam tecidos e aviamentos reaproveitados de coleções passadas. “É inevitável ter sobra e tentarmos aproveitar ao máximo, sem atrapalhar o conceito da coleção. Os tecidos reutilizados podem virar forros das peças, serem tingidos, forrar botões, lenços, enfim, são várias as possibilidades. É uma forma de economizarmos e não desperdiçarmos materiais de qualidade. Tenho uma coleção infantil inteira que foi feita com tecidos de coleções passadas. Ficou lindo!”, conta Isabela.

A jornalista Ana Cândida Zanesco, presidente-fundadora do Instituto Ecotece (que desde 2005 trabalha o conceito “Vestir Consciente” e se dedica a promover a consciência e sustentabilidade através do vestir) acredita que o reaproveitamento na moda é um dos princípios mais ativos em termos ambientais porque otimiza recursos naturais já utilizados na produção de novas peças e também amortiza o impacto gerado na cadeia produtiva. “O Re-design de coleções anteriores é uma ferramenta do design sustentável que possibilita o novo através do ‘renovar’. A tendência para criar menos impacto é essa: reaproveitar o que já está feito, pois já existe muito tecido e roupa produzida no mundo”, explica. “Tudo isso está inserido dentro do conceito do UpCycle”, completa.

Retalhos e meias órfãs
Em uma arrumação corriqueira da gaveta dos filhos, a estilista paulista erradicada em Paris, Márcia de Carvalho, ficou impressionada ao ver o grande número de meias que não tinham seus respectivos pares. A partir daí, surgiu a ideia de aproveitar estas meias solitárias na confecção de novas peças como vestidos, cachecol, echarpes, mantô, entre outros. Inicialmente, ela confeccionou um suéter; depois, percebeu que as possibilidades eram infinitas.

Márcia de Carvalho criou a "Meias Órfãs"

Márcia de Carvalho criou a "Meias Órfãs"

Foi criado, então, em 2007 o projeto “Meias Órfãs” ou Chaussettes Orphelines, com o objetivo de promover os conceitos de inserção, recuperação, reutilização e transformação. “O foco está em dar novos usos para as meias que perderam sua função original. Criamos um produto original, valorizando o produto artesanal, o feito à mão e sua exclusividade”, conta Márcia, que mora na capital francesa há 20 anos e possui duas butiques na cidade, onde é conhecida por peças que agregam o patchwork, crochê e rendas.

A estilista explica que as meias órfãs são doadas e também coletadas através de campanhas, realizadas em parceria com a Universidade Castelo Branco no Rio de Janeiro ou com a prefeitura do 18º distrito em Paris. O processo de transformação depende do resultado almejado: as meias podem ser recortadas em tiras ou inteiramente usadas. Márcia utiliza técnicas de costura como tricô, crochê e bordado para aplicar as construções realizadas com as meias, retalhos e outros resíduos têxteis.

Meias Órfãs (Foto: Beatriz Masson)

Meias Órfãs (Foto: Beatriz Masson)

“Reaproveitando esta peça, diminuímos o volume de lixo. E isso é muito importante em tempos em que a sustentabilidade precisa ser pensada no processo de criação como um todo”, afirma. Márcia acredita tanto neste conceito que realiza uma Oficina de Transformação semanalmente em Paris. “Reutilizamos tudo na criação de novas peças: uma calça pode virar um vestido lindo, camisas ganham versões de saias diferenciadas. Basta usar a criatividade”, conta. O projeto também possui um cunho social, já que oferece cursos de costura em Paris para mulheres da comunidade excluídas do mercado de trabalho. No bairro Goutte d’Or, elas aprendem a confeccionar modelos utilizando as meias “perdidas”.

No ano passado, o “Meias Órfãs” fez parte do calendário oficial do Ano da França no Brasil: a primeira edição aconteceu no final de 2009 na cidade de Marechal Deodoro em Alagoas. “O local foi escolhido pela riqueza do artesanato local. A parceria com a cooperativa de mulheres rendeiras, que trabalham com a renda filé, trouxe como resultado peças lindíssimas que foram mostradas em um desfile que aconteceu em fevereiro deste ano em Paris”, diz Márcia.

Meias Órfãs (Foto: Beatriz Masson)

Meias Órfãs (Foto: Beatriz Masson)

Também apostando na reutilização de tecidos como forma de responsabilidade social, a ONG paulistana Florescer, em parceria com a Prefeitura de São Paulo e o Programa Bolsa de Trabalho da STDS (Secretaria de Desenvolvimento do Trabalho e Solidariedade), criou o projeto Recicla Jeans. Mulheres carentes da comunidade de Paraisópolis na capital paulista criam confecções e acessórios a partir da reciclagem de jeans e resíduos têxteis. As roupas do Recicla Jeans já participaram de feiras internacionais como a Feira SIMM em Madri na Espanha. “Este é um projeto ambicioso que democratiza a moda, colocando-a a serviço de uma comunidade carente de recursos mas cheia de criatividade”, afirma Lia Aguillar da ONG Florescer. O projeto tem como garota propaganda a atriz Karina Bacchi, filha de Nádia Bacchi, fundadora da entidade.

Novas peças, novos consumidores
Aos poucos, os consumidores brasileiros estão se acostumando com a ideia de encontrar produtos feitos a partir de resíduos que antes iam para o lixo. Segundo Ana Cândida, do Instituto Ecotece, aqui no país, o público para este tipo de produto ainda é restrito. “Geralmente são pessoas mais ativas nos movimentos ambientais e de geração de renda. Ainda existe muito preconceito, muitos acham que por ser reaproveitado precisa ser mais barato, pois a qualidade é menor. Mas essa concepção está mudando aos poucos. Na Europa, por exemplo, o que é feito a partir do velho é bem mais aceito e este movimento de aceitação transita por diversos grupos sociais e estilos de pessoas”, explica.

A estilista Isabela Capeto afirma que os consumidores da sua marca aprovaram o reaproveitamento de matérias-primas de coleções passadas na confecção de novas peças. “Meu público se preocupa com ações ecologicamente corretas sim. Tivemos uma ótima aceitação quando lançamos ecobags e outras peças ecofriendly e nunca tivemos nenhuma reclamação pela utilização de matérias”, diz. “As pessoas estão entendendo melhor hoje em dia que reutilizar não significa perder a qualidade”, completa Isabela.

De olho na indústria
No país, ainda não existem dados concretos sobre o reaproveitamento de materiais na confecção de peças, acessórios e até peças decorativas. Mas o movimento de criação de novos produtos a partir de resíduos têxteis e matérias-primas ecologicamente corretas já chegaram à indústria. A Tavex Corporation, por exemplo, criou há alguns anos o Ecol Denim, onde retalhos do tecido eram transformados em fios novamente. Reforçando sua política de negócios sustentáveis, a empresa desenvolveu uma evolução deste tecido, o Bio Denim, produzido com algodão reciclado e feito exclusivamente com fibras e fios reaproveitados do seu próprio processo industrial

O tecido jeans traz, ainda, o acabamento em Alsoft Amazontex desenvolvido a partir da manteiga de cupuaçu em substituição aos amaciantes sintéticos. Seu consumo ainda promove a responsabilidade social por meio do apoio ao crescimento de comunidade locais na Amazônia, beneficiando 700 famílias com o projeto. “Acreditamos que o Bio Denim terá um resultado acima da média em termos de volume de vendas”, afirma Maria José Orione, gerente de marketing da Tavex para a América do Sul.

10 dicas para deixar seu armário “verde”
- Planeje antes de comprar: Abandone as compras por impulso. Analise bem se aquela roupa ou acessório servem para você ou se é só uma vontade passageira.

- Ame suas roupas: Cuide-as com carinho. Se cair um botão ou tiver que ajustar um pouco, procure uma costureira e veja se há como reparar.

- Evite lavagem a seco: Máquinas de lavagem a seco usam tetrachloroethylene, uma substância cancerígena. Procure lavanderias que trabalhem com “wet cleaning” ou CO2 líquido.

- Compre peças antigas ou usadas: Use a criatividade e tenha um estilo próprio. Busque em bazares, feirinhas, brechós, troca de roupas entre amigas. Vale tudo. Se tiver roupas ‘herdadas’ que possam ser interessantes, aposte. Acessórios antigos sempre funcionam.

- Lave bem: Tenha cuidado para não desperdiçar energia. Junte bastante roupa antes de lavar, para economizar na água, luz e sabão. Procure usar a temperatura mais baixa possível. Opte por alternativas naturais na remoção de manchas nos tecidos e produtos que sejam livre de fosfato e biodegradáveis.

- Vista orgânicos e tecidos com material reaproveitado: Os tecidos orgânicos e os desenvolvidos com materiais reaproveitados chegaram para ficar. Na opção do orgânico é possível escolher desde o algodão até a seda, certifique-se de que possui selo de autenticação. Os tecidos com materiais reaproveitados como o tecido PET são uma inteligente opção.

- Encontre uma nova utilidade: Reciclar não é somente reaproveitar. Seja criativo, inspire-se no mundo a sua volta e aproveite o que já existe para reinventar.

- Investigue as origens: Nesse boom de novos tecidos, desconfie do mote ecológico. Como tudo na vida, o que aparentemente poderia ser a solução, pode ser um problema.

- Escolha roupas éticas: Muitas empresas, além de cuidarem da natureza, investem em sustentabilidade e responsabilidade social. Valorize e incentive esse tipo de ação. Procure saber onde ficam as fábricas das empresas que você compra.

- Não desperdice: Não é porque aquele vestido não está na próxima tendência que ele merece ir para o lixo. Se for algo que de-jeito-nenhum-você-usará-novamente, venda, troque, doe.