Por Carolina Gomes

Você se esforça durante uma vida toda para separar direitinho o lixo, controlar o consumo de água e luz, comprar produtos orgânicos. Até que um belo dia descobre que vai ter um filho. Pode apostar. A chance de todo aquele engajamento voar pelos ares é enorme! Durante a gravidez e o crescimento da criança você vai ser bombardeado por ofertas de coisas que não precisa, mas que vão conseguir te convencer de que sua vida ou a vida do seu filho será melhor com elas. É aí que começa o problema.

Ninguém nasce consumista. E não dá para dizer que consumo é sempre algo negativo. O problema é quando isso vira um (mau) hábito e acaba tomando o lugar de outras coisas mais importantes. Ainda mais quando estamos falando de crianças. De acordo com Lais Fontenelle, coordenadora de educação e pesquisa do projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, o consumismo começa a se desenvolver sempre que um pai ou uma mãe – bem-intencionados, mas sem tempo para o diálogo – fazem a vontade dos filhos na compra de algo, mesmo julgando desnecessário. A criança pede, os pais se acham negligentes e lá vêm os presentinhos na expectativa de se redimirem pela falta de tempo.

A compensação material é quase sempre desastrosa porque se está dando dinheiro a uma criança que pede atenção e carinho. A culpa dos pais não desaparece e as crianças tornam-se consumidoras sem limites e chantagistas. “Dizer ‘não’ é cuidar para que os filhos entendam o valor das coisas”, defende Lais. O administrador Pedro Zenti vem trabalhando desde cedo para que o filho Antonio, de cinco anos, aprenda a lidar com a frustração.”Ele precisa saber que em alguns momentos, mesmo que ele queira, não vai poder comprar. É assim quando vamos ao shopping. Antes de sair, fazemos um ‘combinado’ sobre o que vamos comprar ou se vamos simplesmente assistir a um filme”, explica Pedro.

Sabor da conquista: Antonio comprou a tão sonhada bicicleta economizando o dinheiro da mesada

Sabor da conquista: Antonio comprou a tão sonhada bicicleta economizando o dinheiro da mesada

Sem neuroses, o administrador tenta passar para o filho que dinheiro tem sim sua importância na vida das pessoas, que é bom poder comprar uma coisa que queremos, mas que isso não pode ser o mais importante. Com organização, determinação e paciência, Pedro e Antonio compraram uma bicicleta e já completaram dois álbuns de figurinhas.

Tudo que vem fácil vai fácil. Não é por acaso que o consumismo está relacionado à ideia de devorar, destruir. Passados dois dias, a criança já esqueceu aquele brinquedo, que se amontoa em casa e acaba indo para o lixo. Quanto mais se compra, mais lixo se produz. “Sabemos que cada vez que um brinquedo ou um enfeite para cabelo é produzido gera um impacto no meio ambiente. Indústrias consomem energia, emitem poluentes. Então tem que ser um exercício de reflexão constante na nossa vida”, conta Luciana Zenti, jornalista, tia do Antonio e mãe do Gabriel de sete meses e da Alice de sete anos.

A importância do exemplo
E os pais têm encontrado nas escolas um grande auxílio nesse quesito. Não é difícil achar escolas que incentivam o trabalho com sucata, a carona solidária e uma vida menos consumista. A escola Palmares, em Curitiba, promove duas vezes por ano a chamada Feira da Troca. Nesse dia, professores, pais e alunos levam tudo o que não querem mais para que seja trocado. Não vale usar dinheiro, só “papo”. Serve brinquedo, livro, roupa, eletrodoméstico. Usando a criatividade, o que não serve para um, serve para outro. “É uma atividade que permite uma reflexão sobre a dificuldade que temos para nos desprender de certos valores e objetos”, conta Yara Amaral, diretora da escola. “Não é uma tarefa fácil. Estamos remando contra a corrente e qualquer resultado positivo vale a pena”, diz ela.

Para Yara, é urgente trazer o foco da discussão para como as famílias estão lidando com isso. “Como é difícil ser modelo para nossos filhos, como caímos em contradição”, analisa ela. Lais concorda. “Crianças sentem necessidade de seguir exemplos. O problema é que o exemplo oferecido é o do consumo. Os pais têm que conduzir os filhos com palavras e exemplos. Não dá para oferecer duplo comando: dizer uma coisa e fazer outra”, defende. Lais diz que os pais querem criar superprofissionais, investindo em cursos e compras para os filhos, mas esquecem que todas as habilidades necessárias para um profissional de sucesso se desenvolvem nas brincadeiras.

Reaprendendo a brincar
Nesse caso, o investimento é subjetivo, como conta Claudia Serathiuk, mãe de dois filhos e proprietária da Bisbilhoteca, uma livraria totalmente infanto-juvenil. “Tem que dar tempo, olhar, se envolver”, defende. Num espaço criado especialmente para isso dentro da livraria, pais passam a tarde contando histórias para os filhos. Mas, muitas vezes, os pais é quem precisam reaprender o exercício. É assim também nas atividades de brincadeiras cantadas da escola Palmares. “Essas cantigas são frutos de uma tradição oral, não há registro e precisamos manter isso vivo. Porém, com muita frequência, precisamos trazer os avós para participar da brincadeira e resgatar esse acervo porque a geração dos pais dos alunos já é uma geração que nasceu criada pela televisão”, conta Yara.

Lais explica que é difícil dizer que um brinquedo é ruim para uma criança porque quem confere o significado ao brinquedo é o brincar. Para as crianças menores são recomendados brinquedos de faz de conta, que estimulam a imaginação. Para os maiores, podem ser jogos e brinquedos que estimulem a brincadeira em grupo. A pedagoga Alexandra Graf, mãe do Caetano, de dois anos, aposta em panos de todas as cores, brinquedos de lã e tocos de madeira que colocam o filho em contato com texturas e temperaturas diferentes. “Evito os de plástico e aqueles que só precisam apertar um botão”, conta.

A escolha do que vestir, do que comer, com o que brincar ou até mesmo a organização das festinhas de aniversário. Tudo isso faz parte de uma tentativa de criar seu filho de uma forma mais sustentável. “O que queremos para nossos filhos é um mundo onde a essência das coisas seja valorizada. Queremos educá-los para perceber que eles serão sempre parte de um grupo e que respeito é a palavra-chave para a boa convivência”, finaliza Luciana.

Adeus fraldas descartáveis?
Depois de usar 11 mil fraldas descartáveis para criar suas duas filhas, a engenheira química Bettina Lauterbach decidiu nadar contra a corrente. “Eu usava as fraldas descartáveis por simplesmente acreditar que estava fazendo o meu melhor. Mas algumas mães começaram a me questionar se não podíamos desenvolver uma fralda semelhante às que já eram encontradas na Europa e nos Estados Unidos”, conta Bettina. Hoje, a fralda descartável é o terceiro item mais comum nos lixões. O material demora cerca de 450 anos para se desintegrar. Para os ambientalistas, o retorno das fraldas de pano não significa uma volta ao passado, mas uma opão verde que merece uma chance.

Foi assim que nasceu em 2005 a Fralda Bonita. Passados cinco anos, algumas pessoas ainda torcem o nariz. Bettina conta que as maiores inimigas em seu negócio são as avós, que sempre tentam convencer as mães que entram na loja a sair dali imediatamente. A razão é clara: elas ainda têm na memória a pilha acumulada de fraldas no fim do dia. “Mas deve-se levar em consideração que as fraldas estão diferentes e o acesso às máquinas de lavar também aumentou muito”, defende Bettina.

Gabriel tem quase dois anos e não troca mais a fralda de pano pela descartável

Gabriel tem quase dois anos e não troca mais a fralda de pano pela descartável

E as fraldas estão mudadas mesmo. Esqueça aquele triângulo preso com alfinete ou fita-crepe. Em versão mais moderna, as fraldas estão charmosas, com fechos ajustáveis e recheios absorventes. A camada externa pode ser de algodão, plush, malha ou poliéster. Mesmo assim, o caminho ainda é longo. Danielly Lins, pernambucana que mora há quatro anos nos Estados Unidos, só foi perder o preconceito com relação às fraldas de pano quando se deparou com os dois filhos – que têm pouca diferença de idade – usando fraldas ao mesmo tempo. Manter as descartáveis ficaria caro demais.

E esse é justamente um dos pontos a favor das fraldas de pano. Por serem reutilizáveis, o investimento é maior no começo, mas no fim das contas acaba sendo mais vantajoso. De acordo com Bettina, uma família gasta em média 3.575 reais em fraldas descartáveis. Quando se opta pelas de pano, o custo cai para 975 reais (65 fraldas).

A pedagoga Alexandra Graf também optou pelas fraldas de pano. Ela diz que nem deu ouvidos aos comentários da família e amigos. “Já temos fama de alternativos. Quando começamos a separar o lixo reciclável também falaram a mesma coisa, hoje em dia todo mundo faz”, se diverte Alexandra.