Por Jessica Krieger e Rafael Bruno

Qualquer metrópole tem seus problemas, e o trânsito costuma estar entre os principais. Ele é usado como desculpa para atrasos, culpado por doenças e apontado até como um foco de violência urbana. Todo cidadão sabe muito bem como tudo isso atrapalha a sua vida, mas poucos conseguem se engajar em uma solução. Trocar o conforto do ar condicionado do carro pelo selim da bicicleta, por exemplo, é uma medida considerada absurda para muita gente, mas que começa a ganhar força. O que parece um “atraso de vida”, na verdade pode se tornar o futuro da mobilidade urbana.

Não faltam exemplos nem motivos para isso. O consultor ambiental Eduardo Bernhardt, de 34 anos, apostou nessa ideia. Deixou o carro de lado e passou a realizar suas atividades cotidianas de bicicleta. A bike começou a ser usada como principal meio de transporte para este morador do Rio de Janeiro, que passou a ir à faculdade, trabalho e locais de lazer pedalando. Desde 2004, não possui mais carro. Eduardo e a esposa dizem transitar num raio de 15 quilômetros da casa onde moram na capital fluminense com tranquilidade. Pelo menos uma vez por ano, os dois realizam uma cicloviagem para conhecer lugares inusitados. “Cada dia descobrimos algo novo sobre nossa cidade e o deslocamento para qualquer lugar é uma forma de aliviar o estresse e não de alimentá-lo. Está quente? Vou mais devagar. Ladeira íngreme? Desço e empurro a bicicleta. Cansei? Paro onde quiser e descanso. Me perdi? Pergunto o caminho para qualquer um, sem medo e dou meia volta facilmente”, conta.

O cotidiano de Eduardo, um dos diretores da organização civil Transporte Ativo, é apenas um exemplo que ilustra uma alternativa de transporte que está sendo adotada nas cidades brasileiras como forma de transporte sustentável. Além da fácil aquisição e do baixo custo de manutenção, a bicicleta ganha cada vez mais espaço por diversos aspectos, entre eles a rapidez no deslocamento devido ao problema crescente do alto fluxo de veículos. De acordo com o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), de 2001 a 2009, o país ganhou mais de 24 milhões de carros, caminhões e motos – um aumento de 76%. No mundo todo, a frota de veículos registrada pela Organização Mundial da Indústria Automobilística em 2008 chega a um bilhão de unidades.

Segundo Nazareno Affonso, um dos fundadores do Ruaviva (Instituto da Mobilidade Sustentável), o poder público investe desde a década de 50 na implantação de uma política para universalizar o uso e acesso aos automóveis como principal forma de transporte nas cidades. “Tivemos os subsídios para gasolina, financiamentos, construção de viários utilizados majoritariamente pelos automóveis”, explica. Como resultado, estima-se que até 85% da poluição urbana é oriunda dos meios de transporte motorizados com o agravo dos congestionamentos ocasionados pelo excesso de automóveis. São 28,1 milhões de toneladas de poluentes emitidos todos os anos, causando danos ao meio ambiente e, consequentemente, ao bem-estar das pessoas.

Pedalando na cidade
Os defensores do uso da bicicleta enumeram uma série de razões para estimular seu uso: além de economizar tempo e dinheiro, é um meio de transporte não poluente que ajuda na manutenção da saúde. O médico Juarez de Oliveira explica que por ser um exercício aeróbico, o ato de pedalar exercita os músculos, aumenta a resistência do sistema respiratórios e até previne doenças cardíacas. “Na prática do exercício, há também uma sensação de relaxamento e bem-estar, o que traz mais disposição para o dia-a-dia”, diz.

Plínio Rodrigues abandonou o carro e agora se locomove e viaja somente de bicicleta

Plínio Rodrigues abandonou o carro e agora se locomove e viaja somente de bicicleta

Mas não precisa ser um esportista para adotar a bicicleta como meio de transporte. “Não uso roupas de lycra ou tênis para pedalar no dia-a-dia. Pedalo com as roupas de trabalho mesmo. Gosto de utilizar a bike porque não polui o meio ambiente e não preciso gastar dinheiro com combustível. Existe também a questão da mobilidade, neste caso, porque não há trânsito quando se pedala. E convenhamos que o estresse do trânsito faz muito mal à saúde”, garante a fotógrafa Laura Sobenes, de 22 anos. No meio do ano passado, influenciada por uma colega de trabalho, ela começou a usar a bicicleta como principal meio de transporte. “Pedalo todos os dias da semana, especialmente da minha casa até o meu trabalho, cerca de 16 quilômetros. Uso a bicicleta também para o lazer. Além do ‘bikepolo’, que jogo com um grupo de amigos, costumo sair por aí de bicicleta com meu namorado. Tenho um carro desde os 18 anos. Usava bastante, para ir a todo lugar, mas depois que descobri os benefícios da bicicleta, só uso em caso de emergência”, diz.

Por isso, cresce cada vez mais os adeptos ao uso da bicicleta como principal meio de transporte, já que ela está no topo da lista de alternativas não poluentes para as grandes cidades. Seja para mini-percursos de até um quilômetro, ou para ir ao trabalho em até dez quilômetros de casa ou mesmo como transporte associado para levar uma pessoa ao transporte coletivo. O diretor da Transporte Ativo, Eduardo Bernhardt, diz que no Rio de Janeiro, o número de viagens de bicicleta já se equipara ao de metrô e trem juntos. “Há um potencial de grande crescimento neste uso, baseado no histórico dos últimos anos e algumas pesquisas municipais que indicam o grande uso de automóveis por apenas uma pessoa e em trajetos muito curtos. É o panorama ideal para a bicicleta”, confirma.

Em cidades como Copenhague (Dinamarca), a rede de vias está conectada com faixas próprias para os ciclistas. Existe sinalização especial, estacionamentos onde se pode guardar a bicicleta e até mesmo alugar uma. Em 2002, o número de bikes que circulavam pela cidade já ultrapassava o de veículos. Com isso, a cada ano, 90 mil toneladas de gás carbônico deixam de ser emitidas no ar. Já em Amsterdã (Holanda), o respeito aos ciclistas está presente em ações de incentivo ao uso de bicicletas no trânsito e ainda na construção de pontes e viadutos exclusivos para elas.

A maior cidade do país, São Paulo, também percebeu a importância de investir em políticas para incentivar o uso da bicicleta. Há ciclofaixas para bicicletas que integram os principais parques da metrópole e que são inteiramente fechadas para a circulação de bikes aos domingos, das 7 às 14 horas, com percurso sinalizado. O projeto UseBike (conhecer mais na página 51), criado pelo Instituto Parada Vital com o apoio do Metrô de São Paulo e da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, desenvolveu 26 bicicletários e paraciclos (estacionamento de bicicletas) em vários pontos estratégicos da cidade, junto às estações de trem e metrô. “A utilização dos bicicletário em São Paulo têm sido significativa. De setembro de 2009 a maio de 2010, mais de 15 mil pessoas se cadastraram no UseBike. Neste mesmo período, foram realizados mais de 48 mil empréstimos de bicicletas”, explica Ismael Caetano, presidente do Instituto Parada Vital. “Estes índices mostram que estamos trabalhando em prol dos ciclistas, mas em questão de ciclovias, ainda estamos engatinhando. A capital paulista tem 17 mil quilômetros de vias e avenidas e só 34 quilômetros de ciclovias. Mais da metade delas estão dentro dos parques”, complementa.

Bicicletas do projeto UseBike (Foto: Divulgação)

Bicicletas do projeto UseBike (Foto: Divulgação)

Ismael pontua que existem dois perfis de pessoas que utilizam bicicletas na cidade de São Paulo: cidadãos de baixa renda que veem o uso da bicicleta como uma forma de transporte mais econômica e aqueles que têm consciência da importância desta alternativa como forma de mobilidade não poluente. Pessoas como Laura e o jornalista Plínio Rodrigues, de 30 anos, que resolveu fazer uma mudança radical no seu estilo de vida. “Há mais de um ano, comecei a comer mais frutas e verduras, diminui a quantidade de embalagens plásticas adquiridas no supermercado e passei a controlar mais a quantidade de lixo que produzo.

A bicicleta foi o carro chefe desta mudança, com o abandono completo do carro. Passei até a viajar de bicicleta, descobrindo um novo prazer que é o cicloturismo”, explica. Por causa da bicicleta, o jornalista mudou até de emprego: agora, desenvolve um projeto que inclui o cicloturismo e geração de conteúdo sobre o assunto. “Vou percorrer 21 municípios da região oeste de São Paulo de bicicleta para traçar rotas e apurar informações sobre estes locais”, conta.

Educação e segurança
Eduardo Bernhardt ressalta que as prioridades para acelerar o crescimento do uso de bicicletas começam com a educação para o trânsito, voltada para motoristas, pedestres e ciclistas. “Também precisamos investir na otimização de trânsito para a segurança do ciclista, ou seja, apostar na redução do limite da velocidade dos veículos, principalmente em ruas locais”, afirma. Ele explica que o Rio de Janeiro possui mais de 100 quilômetros de ciclovias, mas que não foram pensadas para o transporte, e sim, para o lazer e esporte. Por isso, defende o investimento em ciclofaixas. “Desta forma, não prejudica a circulação dos motorizados, oferece mais segurança aos ciclistas e principalmente, coloca as bicicletas na via, dando início a uma relação de respeito mútuo, fundamental para que a bicicleta de fato faça parte do trânsito em qualquer rua da cidade”, relata.

O ciclista Plínio concorda: “uma boa alternativa é garantir meios para que o cidadão possa pedalar sua própria bicicleta com segurança. A conscientização dos motoristas de automóveis também é uma questão que precisa ser pensada. Eu mesmo já fui atropelado algumas vezes. Numa sociedade do automóvel, uma mudança nessas características de se relacionar com o espaço urbano é fundamental para que haja maior utilização da bicicleta. Muita gente que conheço adoraria pedalar mais, mas não o faz por medo de sair nas ruas da cidade de bike”.

Projetos que dão certo
Ruaviva – Brasília – DF
Nazareno Affonso, do Ruaviva, conta que na cidade de Brasília existe um projeto que foca sua pesquisa e proposta naquelas pessoas que usam a bicicleta. “Concluiu-se que a maioria é de baixa renda e que fazem trajetos de mais de 30 quilômetros, principalmente na cidades satélites. A proposta é chegar a 400 quilômetros de vias para bicicleta – hoje são 40”, explica.

Zonas 30 – Rio de Janeiro – RJ
No Rio de Janeiro, uma parceria entre Estado e município está construindo ciclovias e instalando ciclofaixas em vias pontuais da cidade, além de reduzir os limites de velocidade em ruas secundárias. “São as chamadas Zonas 30, onde o limite é de 30 quilômetros por hora. Bom para os ciclistas, bom para os pedestres. O projeto piloto desta iniciativa é em Copacabana, mas em breve, as ruas da Tijuca também farão parte do projeto”, conta Eduardo Bernhardt.

UseBike – São Paulo – SP
Para utilizar o UseBike em São Paulo é simples. Para estacionar a bicicleta basta comparecer a um dos locais portando qualquer documento com foto e o número do CPF para cadastro. No caso de empréstimos também é necessário um cartão de crédito Visa, Mastercard ou Amex com um limite disponível de 350 reais para pré-autorização. Quem não possui cartão de crédito pode comparecer à sede do Instituto Parada Vital (Alameda Barão de Limeira, 985, 5º andar, Campos Elíseos das 8h30 às 17h30) munido de RG, CPF, comprovante de residência (originais e uma cópia) e duas fotos 3×4 para confecção da carteirinha do UseBike, que dará acesso ao serviço.