Newton Figueiredo é fundador e presidente do Grupo SustentaX, e ministrou a palestra “Empresa verde, números no azul: como a sustentabilidade pode alavancar vendas e lucros” no 13º Fórum de Varejo da América Latina. Para ele, já existe uma mudança no comportamento do consumidor em escolher produtos com responsabilidade socioambiental.

Uma pesquisa divulgada no mesmo evento pela GS&MD Gouvêa de Souza apontou principalmente que os consumidores têm dificuldade em identificar quais são os produtos sustentáveis mas, mesmo assim, estão dispostos a pagar até 8% a mais por eles. Outro problema encontrado por eles é o greenwashing, ou a maquiagem verde.

O Grupo SustentaX organiza o Selo SustentaX de Sustentabilidade, que analisa empresas segundo cinco critérios básicos (qualidade, salubridade, responsabilidade social, responsabilidade socioambiental e comunicação responsável).

Newton Figueiredo

Newton Figuereido é fundador do Grupo SustentaX e especialista em Sustentabilidade de Produtos e Serviços. (Foto: Iara Morselli)

Em entrevista, Newton Figueiredo comenta sobre as ações que o consumidor pode ter para escolher os produtos de uma maneira mais sustentável.

Atitude Sustentável -  Como o consumidor pode analisar a sustentabilidade dos produtos na hora de decisão de compra?

Newton Figueiredo – De forma prática para não cair na conversa de fabricantes e distribuidores que nem sempre têm a ética como balizadora de suas propagandas e comunicações com seus clientes, os consumidores devem em primeiro lugar se colocar na posição de São Tomé: ver para crer. Comece pela etiqueta que informa a origem do produto e verifique sua procedência. Dê preferência para produtos produzidos em sua região. Evite comprar produtos similares produzidos em outros países. Se você compra produtos de outros países, você está diminuindo o recolhimento de impostos e estimulando o desemprego e a falta de serviços e infraestrutura pública.

Já que se está olhando a etiqueta, em segundo lugar, verifique se o que está sendo dito na frente do produto realmente consta em sua composição e você poderá ter interessantes surpresas. Se, por exemplo, estiver comprando um pão-de-queijo, verifique na sua composição se ele realmente tem queijo.

Em terceiro, não se deixe levar pela embalagem, se é reciclada ou não. Isso, neste momento de análise, não é importante. O que é importante é saber se o produto é agressivo à sua saúde e à de sua família. Alguns varejistas têm maquiado alguns produtos reduzindo suas embalagens e aumentando o porcentual reciclado e estimulado a venda desses produtos como “mais sustentáveis”. Nessa lista existem produtos nada ecologicamente amigáveis e outros agressivos à saúde humana. Cuidado!

Uma forma de ajudar na identificação de produtos sustentáveis é por meio dos chamados Selos Verdes, como o selo Procel para eletrodomésticos e eletrônicos, o FSC e CERFLOR para madeiras e papéis e o SustentaX para produtos e serviços sustentáveis. Na área de orgânicos existem o IBD e EcoCert, dentre outros.

AS -  Como o fabricante pode começar a modificar os produtos para que sejam mais sustentáveis?

NF – Em primeiro lugar, verificando se está atendendo aos atributos essenciais da sustentabilidade: não pode fazer mal à saúde de quem o fabrica e utiliza, tem que ter qualidades funcionais e ambientais comprovadas e tem que estar sendo produzido e comercializado com responsabilidade socioambiental e com respeito ao consumidor. Feito isso, o produto pode se tornar mais sustentável com a revisão de processos e inovando em melhorias constantemente. Os selos são uma forma de mostrar ao mercado que passaram por análises rigorosas para a sua obtenção. O Índice SustentaX de Sustentabilidade (ISS) de Produtos que ajudará, em primeiro lugar, o consumidor a identificar o produto mais sustentável e, em segundo, as áreas de desenvolvimento, pesquisa e inovação do fabricante a encontrar caminhos para melhorar ainda mais a sustentabilidade dos produtos.

AS – Como o consumidor pode perceber a maquiagem verde?

NF – Alguns sinais da maquiagem verde são:

1. Duvide de selos próprios.
2. Termos genéricos também são muito usados como 100% natural, 100% ecológico, eco, amigo da natureza (eco-friendly) e variações do tipo.
3. Informações sem comprovação imediata ou termos científicos. Como, por exemplo, informar que um produto, como sabão em pó, pode reduzir o consumo de água; ou então um amaciante economizar energia.
4. Informações redundantes. Detergentes colocam “testados dermatológicamente”. Ora, isso é obrigatório por norma!
5. Excesso de imagens da natureza: reparem se há muito verde ou imagens de animais.
6. Falar que o produto é “neutralizado” em carbono. Desconfie da simples neutralização que não torna o produto sustentável. A neutralização é válida após a revisão e efetiva redução dos impactos ambientais da cadeia produtiva. É o final e não o começo.
7. Embalagem reciclada ou reciclável. Embalagens não tornam os produtos sustentáveis. Um desinfetante que faz mal a saúde não pode ser sustentável apenas porque sua embalagem é de plástico reciclável.
8. Produtos concentrados. Só porque foi retirada a água do produto não o torna “verde”. É importante que ele não faça mal à saúde.
9. “Sem cheiro”. O importante é o fabricante demonstrar que o produto apresenta baixa toxidade, por critério reconhecido.

AS – Quando algum tipo de produto não apresenta nenhuma opção que tenha selo de sustentabilidade, quais critérios o consumidor pode usar para escolher e perceber qual marca é a melhor opção?

NF – A dica é procurar pelos cinco atributos essenciais de sustentabilidade:

1. Salubridade: Evite produtos com odores (normalmente esses odores decorrem de componentes orgânicos voláteis que podem fazer mal à saúde).
2. Qualidade
: Consulte alguém que você confie. Nem todas as tintas são iguais, por exemplo. Várias não têm teste de aderência e, a primeira vez que você for fazer uma limpeza, pode sair na esponja.
3. Responsabilidade social
: Questione a procedência. Por exemplo, se for comprar uma areia em uma loja de construção pergunte se vem de uma empresa confiável, sem trabalho infantil, escravo…
4. Responsabilidade ambiental
: Questione a procedência. Por exemplo, se for comprar objetos de madeira pergunte sobre a legalidade.
5. Comunicação responsável com o consumidor
: Procure por marcas onde você identifique ética e genuinidade na comunicação.