Aos poucos a sustentabilidade está cada vez mais presente na cozinha, ambiente onde se produz um grande volume de resíduos. Esse volume pode ser reduzido e destinado corretamente sem agredir o meio ambiente, aplicando-se ações que vão desde o aproveitamento integral de alimentos até a reciclagem de óleos e embalagens.

Aline Rissatto, nutricionista e gastróloga, faz parte da ONG Banco de Alimentos e apresenta o programa “Receita de Família” da TV Brasil. A nutricionista explica que ainda há um certo preconceito com o uso culinário de partes não convencionais dos alimentos, independente de fatores econômicos ou classes sociais. “De fato somos o quarto maior produtor de alimentos do mundo. Porém, apesar de toda esta riqueza, 65,8 milhões de brasileiros vivem em insegurança alimentar, 22 milhões são indigentes e que 16% de nossas crianças, abaixo dos 6 anos de idade, são desnutridas”, afirma comentando que o modelo alimentar que temos hoje no Brasil é desequilibrado.

Além do preconceito do termo “restos de comida”, ela diz que “outro fator que caracteriza o receio do consumo destas partes dos alimentos está relacionado à presença de agrotóxicos, em especial, nas cascas. Isso não significa, porém, que o agrotóxico utilizado no cultivo dos alimentos está presente exclusivamente nas partes não convencionais”.

Aline relembra que a casca, apesar de conferir proteção ao interior dos alimentos, é porosa, de modo que parte dos agrotóxicos também está presente na polpa, portanto, o importante não é evitar o consumo das partes não convencionais, mas saber como utilizá-las reduzindo riscos à saúde. “De qualquer maneira, é preferível prezar pela utilização de alimentos orgânicos, pois estes não possuem em seu cultivo a adição de qualquer composto químico para redução de pragas”, afirma.

Confira as dicas da Aline Rissatto de como ser sustentável na cozinha, também presentes no livro “Gourmet & Sustentável: Cozinhando com as partes não convencionais dos alimentos”, produzido pela ONG Banco de Alimentos:

Redução do acúmulo de lixo orgânico
A maior parte do lixo do brasileiro é composta por alimentos (60% de nosso lixo é orgânico). Este acúmulo de lixo pode ser um fator extremamente prejudicial, visto que o lixo orgânico não tratado gera o “chorume”, líquido escuro e malcheiroso que polui águas e torna terras inférteis para plantação. Além disso, este líquido promove a liberação de gás metano, que pode colaborar com o aumento do efeito estufa e, consequentemente, com alterações climáticas.

Economia e a variação do cardápio
Um único alimento pode render até 6 preparações: com casca, entrecasca, folha, talos, semente e a própria polpa do alimento. Quando descartamos as partes não convencionais, deixamos de economizar 5/6 do dinheiro neles investido, visto o alimento é composto de casca, folha, entrecasca, talos, sementes além da polpa que costumeiramente utilizamos de forma exclusiva.

Maior valor nutricional
Já é comprovado cientificamente que estas partes dos alimentos julgadas como lixo, apesar de serem totalmente próprias para consumo, possuem o equivalente ou até 5 vezes mais nutrientes e fibras do que a polpa que costumamos consumir. A casca de laranja, por exemplo, chega a conter até 6 vezes mais fibras, 4 vezes mais fósforo e 40 vezes mais cálcio do que a polpa. A casca de melancia tem até 3 vezes mais potássio e a casca de mamão tem 2 vezes mais proteínas em relação à polpa. O uso destas partes não convencionais dos alimentos, portanto, apresenta também grande importância no que concerne à qualidade de vida e saúde.

Reduzir desperdícios
- Comprar bem: Planeje suas compras: Evite excessos! Prefira os alimentos da época, pois possuem melhor qualidade (maior durabilidade, maior teor nutricional e menor quantidade de agrotóxicos) além de apresentarem preços mais acessíveis;
- Conservar bem: Armazene em locais limpos e em temperaturas adequadas para cada tipo de alimento;
- Higienizar bem: Todas as frutas, verduras, legumes, cascas, talos e folhas devem ser lavados em água corrente e higienizados em solução de hipoclorito de sódio (siga as instruções de rotulagem) para eliminar microorganismos, e em seguida devem ser lavados novamente em água filtrada;
- Preparar bem: Não retire as cascas grossas ou utilize-as para outras receitas e prepare apenas a quantidade necessária para as refeições da sua família.