O projeto Vá pra feira!, que incentiva a visitação de feiras na cidade de São Paulo, foi criado pela arquiteta Marina Morelli, como trabalho de conclusão de curso. Veja na entrevista a seguir o que motivou Marina a realizar o trabalho e como ela acredita que uma cidade pode ser feita para pessoas:

Produtos que podem ser encontrados nas feiras. Imagem: Vá pra feira! Clique para aumentar a imagem.

Atitude Sustentável: Como surgiu a ideia de trabalhar e pesquisar esse tema?

Marina Morelli: O projeto váprafeira.com é o produto final do meu Trabalho Final de Graduação em Arquitetura e Urbanismo, que concluí agora em dezembro na Escola da Cidade. Este trabalho foi desenvolvido durante todo o ano de 2011, em diversas etapas. Desde o início tinha vontade de fazer algum trabalho que dialogasse com um público que não fosse constituído somente por arquitetos, podendo levantar discussões sobre a nossa cidade hoje, principalmente a questão da importância do uso do espaço público para a vitalidade das cidades. Saí pelas ruas de São Paulo procurando encontrar situações urbanas que me chamassem a atenção nesse aspecto e pude enxergar diversas vezes as feiras livres como uma apropriação do espaço público que além de incentivar o pequeno comércio local, gerar vida urbana, fluxo de pedestres e contatos culturais/pessoais, é um equipamento urbano essencial para a logística da cidade e que mesmo assim é periódico, é montado e desmontado semanalmente para atender a essa demanda local.

Atitude Sustentável: Como urbanista, acredita que o uso melhor do espaço urbano é importante para uma mobilidade urbana maior?

Marina Morelli: O uso do espaço público é fundamental para a vitalidade das cidades. Lugares que contam com um alto fluxo de pedestres costumam ter diversidade de comércio, serviços, restaurantes e habitação, que atraem variados públicos durante diversas horas do dia. Além disso, os locais com grande circulação de pessoas passam uma sensação maior de segurança do que lugares desabitados. A questão da mobilidade é bastante complexa pois envolve diversos meios de transporte, públicos e privados, que certamente estão relacionados com a ocupação da cidade hoje. Prefiro não tentar aprofundar nesse tema devido a essa complexidade que vai além dos estudos da minha tese.

Atitude Sustentável: Durante a pesquisa, o que conseguiu perceber como razões para as pessoas não irem mais às feiras?

Marina Morelli: A maioria das pessoas que conversei durante a pesquisa me disse que adoraria ir à feira porém o grande empecilho que vai contra sua vontade é o horário que acontecem, não flexível e incompatível com as suas rotinas. Grande parte dos paulistanos trabalha durante esse período e se acaba indo à feira é para comer um pastel na hora do almoço e não fazer compras.

O que se diz na feira: lado social também é uma vantagem das feiras. Imagem: Vá pra feira!

Atitude Sustentável: Além das feiras, de que outras maneiras acredita que o espaço urbano pode ser melhor utilizado?

Marina Morelli: Essa é uma questão que procuramos discutir sempre no Urbanismo, o bom aproveitamento do espaço urbano. Acredito que seja  um tema bastante delicado e que como está em constante discussão há diversos autores se contradizendo a respeito disso neste exato momento. Mas vou dizer em poucas palavras o que penso. As cidades precisam de pessoas, fluxo e circulação de pedestres, que geram um comércio e uma ocupação da cidade em uma escala local, o que é positivo. Além disso, a cidade necessita sempre de diversidade de usos (residencial, comercial e público), pois desta forma permite que haja pedestres durante todas horas do dia. Os bairros que são estritamente residenciais ficam vazios durante o dia, quando a maioria das pessoas vai trabalhar, e ficam principalmente nebulosos à noite, quando de fato não há uma alma viva nas ruas. A apropriação do espaço público é fundamental para a vida das cidades e dos habitantes, e qualquer equipamento urbano que gere fluxo e vida nas ruas é valorizado pelo ponto de vista urbano.

Atitude Sustentável: Tirando a campanha que você já está fazendo, como acredita que a visitação de feiras pode ser mais incentivada?

Marina Morelli: Acredito que se as feiras começarem a se adaptar às necessidades contemporâneas, oferecendo produtos orgânicos por exemplo, um grande público passará a frequentá-las. Também acho que seria interessante se a prefeitura começasse a pensar em algumas feiras que acontecessem em outros horários como à noite por exemplo, pois dessa maneira outra parcela da população poderia ir à feira semanalmente.