Há dois anos, Julia Aguiar e sua família perceberam que os resíduos orgânicos produzidos por eles poderiam ser reutilizados ao invés de serem levados para aterros da cidade e passaram a ter uma composteira em casa. Desde então, a família de quatro pessoas já inseriu a composteira na rotina da casa.

“Na nossa experiência, a prática da compostagem está intrinsecamente ligada a outra prática fundamental, que é uma alimentação saudável que implique em saúde para nossa família, para as famílias dos agricultores e para a mamãe natureza (como dizem as nossas pequenas). Faz mais de sete anos que sempre compramos nossos alimentos na Feira de Agricultores Ecologistas de Porto Alegre. O fato de comprar direto dos produtores alimentos tão ricos nos incentiva o prazer de cozinhar cotidianamente em casa, nós mesmos. Isso gera muita matéria orgânica. E o desperdício dos nossos resíduos  era uma coisa que nos incomodava muito… a composteira, desse modo, fez com que encontrássemos novamente o ciclo natural da vida, mesmo morando no 7º andar de um apartamento no centro de Porto Alegre! Em maio de 2012, montamos essa composteira. Já havíamos tentado outros tipos, mas como produzimos muita matéria orgânica, não tivemos sucesso… Quem nos ensinou esse ‘modelo’ de composteira foi nosso amigo Jacques Saldanha, que havia aprendido com José Lutzemberger (da Fundação Gaia). E deu muito certo! Passamos a transformar os resíduos e produzir adubo para fertilizar os solos da cidade, tão degradados”, explica Julia.

Pensando em ajudar outras famílias que desejem também ter composteiras, principalmente em locais pequenos, Julia gravou um vídeo explicando todo o processo de montagem da composteira:

Veja abaixo uma pequena entrevista com Julia:

Atitude Sustentável – Como foi o processo de adotar a composteira? Que dificuldades encontraram?

Julia Aguiar – O processo de montar a composteira foi, na realidade, uma necessidade – visceral – de transformar nosso “lixo”, nossas sobras, em um material útil, para nós e para todos. O processo foi – e está sendo – uma rica sucessão de descobertas. Desde aspectos relativos à própria “química” do composto, no modo como manejar a matéria orgânica, de encontrar o equilíbrio necessário entre os alimentos, a micro-vida que os decompõe, as folhas secas e o ar. Até uma série de outras práticas e ações que passaram a nortear a vida da gente, e nos impulsionaram a cada vez mais conhecer, divulgar e ser parte da construção de experiências sustentáveis de verdade.

Percebemos que as cidades poderiam realmente ser espaços diferentes se as pessoas transformassem seus resíduos e adubassem o ambiente urbano. Uma boa referência para esse tipo de experiência é o livro Testamento Agrícola (Sir Albert Howard), que tem um capítulo específico sobre o tema (A utilização dos resíduos urbanos em compostagens), e que mostra o potencial de continuidade da vida perdido num aterro sanitário.

Realmente deveríamos ter na cidade lugares onde pudéssemos depositar esse material, e que fosse respeitado o espaço para o cultivo dessas pequenas hortas/canteiros, no espaço público mesmo. E nesse sentido, muitos dos canteiros onde colocamos o adubo da nossa composteira já nasceram tomates, abóboras, abacateiros, bergamoteiras e outras tantas plantas que germinam das sementes que ali se encontram. No entanto, como relatamos no vídeo que fizemos, muitas vezes as plantas que estão nascendo são arrancadas por que são vistas como inços!

Atitude Sustentável – Junto com a adoção da composteira, foram feitas também outras alterações no estilo de vida de vocês?

Julia Aguiar – Sim, pois a gente passa a ter mais responsabilidade sobre o que trazemos para casa e que tipo de resíduos “sobram” do nosso consumo. Então, passamos a procurar espaços de comercialização na cidade onde se pode adquirir materiais que são reutilizados ou transformados na nossa própria composteira. O resultado mais evidente é que praticamente deixamos de frequentar supermercados e nosso orçamento doméstico teve uma sensível redução. Até mesmo produtos de limpeza são adquiridos à granel de uma Associação de Recicladoras da cidade vizinha de São Leopoldo. E como produzimos pouco lixo seco, nos últimos anos temos acumulado esse material durante alguns meses e encaminhamos pessoalmente para os galpões de triagem. Quando tivemos nossas filhas, utilizamos também as fraldas de pano e outra prática que adotei, e que faz parte dessa prática de “reciclar a vida” é o uso dos absorventes ecológicos (os paninhos, como os chamavam as nossas avós).

A composteira, assim, acaba sendo uma parte fundamental de todo nosso sistema de vida, que vem ao encontro de ideais que perseguimos há um bocado de anos! E o vídeo que fizemos da Composteira Doméstica, foi produzido na necessidade de comunicar nossa experiência com essa prática, tão simples, e de consequências tão profundas e transformadoras!