A WWF Brasil lançou um relatório sobre como é possível aproveitas as fontes renováveis alternativas do país para gerar energia elétrica. O estudo mostra que o potencial de aumento da participação da energia eólica, biomassa e pequenas centrais hidroelétricas é de 40%.

A pesquisa, intitulada “Além de grandes hidroelétricas: políticas para fontes renováveis de energia elétrica no Brasil”, mostra que, quando bem utilizadas, as fontes alternativas de energia podem provocar impactos ambientais muito menores em relação às grandes hidroelétricas, sem causar necessariamente um aumento de custo na produção.

Veja abaixo uma entrevista com Carlos Rittl, Coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia da WWF Brasil:

Atitude Sustentável: Qual o objetivo da WWF com o relatório “Além de grandes hidroelétricas: Políticas para fontes renováveis de energia elétrica no Brasil”?
Carlos Rittl:
Nós queremos contribuir para o debate sobre energia no Brasil, sobre nossa matriz de eletricidade e sustentabilidade. O fato de nossa matriz de eletricidade ser predominantemente renovável não significa que ela seja sustentável. Grandes projetos hidrelétricos, como as usinas em construção e projetadas para a Amazônia, provocam grandes impactos socioambientais. Energia nuclear é cara e perigosa. O carvão mineral gera impactos desde sua exploração até o uso final para geração de energia, em emissões de gases de efeito estufa. Temos alternativas a nosso dispor, um grande potencial subaproveitado de energia eólica, energia de biomassa de cana-de-açúcar, de pequenas centrais hidrelétricas e de energia solar fotovoltaica. Se houver planejamento adequado, resultante de um zoneamento robusto, com definição de áreas cujo potencial será aproveitado e outras que serão preservadas devido aos riscos socioambientais na implementação de projetos a partir daquelas fontes, poderemos atender uma parte significativa da demanda por eletricidade do país a partir destas fontes de menor impacto. E elas fontes podem deixar de ser apenas alternativas. Nosso estudo oferece caminhos ao alcance dos tomadores de decisão para aumentar o uso destas fontes no país e mostra que o Brasil só tem a se beneficiar se nosso Governo decidir fazê-lo.

Atitude Sustentável: De que maneiras as políticas públicas podem interferir na produção das fontes renováveis alternativas de energia?
Carlos Rittl: Políticas públicas são fundamentais para a mudança do contexto atual de nossa matriz elétrica. As experiências de outros países, como Alemanha, Espanha, dentre vários outros, mostram que políticas positivas bem estruturadas trazem resultados positivos não só do ponto de vista ambiental, mas também econômico e social. No Brasil, o poder público tem papel crítico na definição do futuro desta matriz. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia, tem dentre suas responsabilidades a execução de estudos para o planejamento da expansão do setor elétrico, tanto no que se refere à geração de energia quando à transmissão, e de estudos de viabilidade técnico-econômica de empreendimentos. Havendo decisão política por parte do Governo Federal, da Presidência da República, em favor do maior aproveitamento do potencial ocioso das fontes chamadas de alternativas, através da definição de políticas de incentivo, fomento, o direcionamento de subsídios positivos a estas fontes, e definição de metas ambiciosas para sua expansão, podemos revolucionar a matriz elétrica do país.

Tabela faz comparação entre custos de geração de eletricidade no Brasil. Fonte: Relatório "Além de grandes hidroelétricas", da WWF Brasil.

Atitude Sustentável: Quais podem ser os possíveis impactos do uso de energias alternativas?
Carlos Rittl: Um bom planejamento, aliado a um zoneamento adequado, conforme mencionei anteriormente, nos trarão inúmeros benefícios. A diversificação de fontes de energia contribui para a segurança energética do país, para atender as nossas demandas de eletricidade sem riscos. Podemos também eliminar de nossos planos para expansão da geração de energia elétrica  fontes sujas e perigosas, como a energia nuclear e à base de carvão mineral. Podemos reduzir a expectativa de aproveitamento de gás natural, outro combustível fóssil, para gerar eletricidade. Os resultados seriam a redução de impactos, riscos e de emissões futuras de gases de efeito estufa. Podemos reduzir significativamente a pressão sobre a Amazônia, seus recursos hídricos, as florestas e populações humanas em áreas sujeitas à construção de grandes empreendimentos hidrelétricos. Seriam passos significativos para termos uma matriz elétrica, além de predominantemente renovável, sustentável. Mas há mais efeitos positivos. O fomento a estas fontes provocaria o desenvolvimento de suas cadeias produtivas, o que gera novos empregos e pode contribuir para o desenvolvimento de tecnologia no país, o que é altamente estratégico em tempos de busca pela sustentabilidade e pelo desenvolvimento econômico baseado em baixas emissões de carbono. Teríamos muito a ganhar com a decisão de ampliarmos a participação destas fontes em nossa matriz elétrica.

Atitude Sustentável: Fora do país, o conceito de “autoprodução” já é mais difundido, e não só em empresas, mas em áreas residenciais também. Essa pode ser uma saída no Brasil também?
Carlos Rittl: A geração distribuída de pequeno porte é, sim, parte da solução para atender a demanda por eletricidade, contribuindo para a redução de impactos na geração de energia elétrica. Vários países, como Alemanha, Reino Unido, Israel, Canadá possuem regulamentação para a microgeração distribuída, incluindo a possibilidade de comercialização da energia excedente gerada, por exemplo, por painéis de células fotovoltaicas em telhados de prédios residenciais. No Brasil, somente agora, em 2012, o Governo Federal, através de resolução normativa (No. 482/2012) da ANEEL, definiu regras para acesso de microgeração distribuída à rede de energia elétrica. Os consumidores serão capazes de abater de sua conta de luz a energia local gerada, excedente a seu consumo. Mas ainda há muito espaço para evoluirmos. Viabilizar a comercialização da energia elétrica excedente pode tornar o investimento em microgeração mais atrativo. Isto só será possível através de políticas públicas (no nível Federal e também no âmbito dos Estados, que podem reduzir impostos), regras claras e incentivos positivos para a produção de tecnologia, equipamentos e para o próprio investimento na instalação e operação dos equipamentos. Havendo vontade e decisão política, podemos ter milhões de brasileiros se beneficiando de sistemas de microgeração distribuída. Ganham os indivíduos, a sociedade, os Governos, o país. Todos ganham.

Potencial em números

Veja as estimativas dos resultados da adoção de energias alternativas no Brasil:

Em termos comparativos, somente a energia eólica já apresentava, em 2001, um potencial de geração de energia elétrica de 143 milhões de kW. Passados 11 anos, estima-se, em 2012, um potencial de 300 milhões de kW de energia gerada pelo vento. Esse total é superior ao dobro da capacidade total instalada no Brasil, que é de mais de 114 milhões de kW, considerando-se todas as fontes geradoras.

Pensando-se no potencial de geração da energia solar, se o lago de Itaipu fosse coberto hoje com painéis fotovoltaicos, a geração ao ano seria de 183 TWh, que é o dobro de toda a energia que aquela usina produziu só em 2011 (92,24 TWh).

Outra fonte com potencial subaproveitado é a biomassa com uso de cana-de- açúcar. De 440 usinas desse tipo em atividade no Brasil, só 100 delas produzem eletricidade. O potencial de geração de eletricidade estimado só para esta fonte era de 14 milhões de kW em 2009.