Sobre a extração de petróleo em pré-sal, o geólogo norte-americano John Amos, presidente da organização não governamental SkyTruth, disse que governo e empresas devem ser claros e transparentes na hora de informar a sociedade sobre os avanços da exploração e possíveis vazamentos. Além disso, os cientistas precisam desenvolver planos de ação melhores em casos de vazamentos.

John Amos está presente como palestrante no VII Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), realizado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, de 23 a 27 de setembro, no Centro de Convenções de Natal.

Confira abaixo uma entrevista com John Amos, concedida para a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza:

Quais as áreas em águas profundas que hoje em dia estão em risco devido à exploração de petróleo no Brasil?

John Amos (Foto: Divulgação).

John Amos: No Brasil, a expectativa é que a maior atividade em alto mar continue a se concentrar nas bacias de Campos e Santos, nos estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. A atividade de exploração em águas profundas nessas áreas irá cada vez mais apontar a complexidade e desafios tecnológicos que o subsal e o pré-sal trazem ao longo da faixa leste, em águas profundas nas margens dessas bacias. Mas as plataformas de perfuração também atuaram no ano passado nas águas profundas da bacia do Espírito Santo, e próximo à costa do Sergipe e da Bahia onde a plataforma continental é muito estreita. Algumas plataformas têm também operado em águas rasas nos estados do Amapá, Maranhão, Rio Grande do Norte e Santa Catarina.

Qual impacto que essa exploração pode trazer à biodiversidade?

John Amos: Por ser geólogo, e não biólogo, não conseguirei responder a essa pergunta. Porém, posso dizer que nossos estudos no Golfo do México mostram que pequenos vazamentos e derramamentos de óleo são comuns.  O intenso desenvolvimento da costa é necessário para apoiar as atividades em alto mar, mas esse desenvolvimento traz consigo atividades impactantes como o processamento de óleo e gás, armazenamento e meios de transporte, que alteram radicalmente o meio ambiente devido à destruição direta e à degradação indireta do habitat.

Quais os desafios da exploração em águas profundas?

John Amos: A exploração do pré-sal e do subsal é tecnicamente desafiadora. Acontece geralmente em águas profundas, e os poços são mais difíceis de serem perfurados com sucesso. Há grande risco financeiro e grande risco de segurança. Como vimos no Golfo do México, os problemas são mais difíceis e demoram muito mais tempo para serem consertados quando acontecem em águas muito profundas. Além disso, os poços de subsal são perfurados milhares de metros mais abaixo da terra do que os de pré-sal, então o óleo e o gás desses poços estão sob maior pressão e, portanto, são mais difíceis de serem controlados: qualquer problema ou falha no design e na construção de um poço de subsal é mais provável de resultar em sérios problemas, como uma explosão, do que em poços de pós-sal mais rasos e com menor pressão.

Quais regiões podem ser afetadas em caso de acidente?

John Amos: É muito difícil de prever qual área seria afetada caso acontecesse um derramamento muito grande de óleo. Depende muito de onde o problema está localizado, das ações que as correntes de ar e marítimas fazem e de como agimos diante de um vazamento. No Golfo do México em 2010, o vazamento estava ocorrendo no fundo do mar, 1.524 metros (5.000 pés) abaixo da superfície, e agimos borrifando dispersantes químicos dentro da nuvem de óleo e na mancha de óleo na superfície. Isso fez com que muito do óleo afundasse na água, que acabou sendo transportada de forma imprevisível pelas correntes marinhas. Muitas pessoas criticaram essa abordagem, alegando que isso fez com que o vazamento de óleo fosse muito mais tóxico e prejudicial às pessoas, frutos do mar e vida marinha. Os cientistas ainda estão estudando isso. Por fim, pessoas e negócios ao redor de todo o país podem ter sido afetados. O comércio de frutos do mar embalados na Virginia, a 1,2 mil quilômetros (800 milhas) do Golfo do México, foi financeiramente afetado pelo vazamento ocorrido.

Como proteger as áreas destes impactos se boa parte dessa exploração é feita pelo Governo? Como prevenir a ocorrência de acidentes nessas áreas?

John Amos: A melhor solução é usar menos petróleo, pois assim precisamos escavar menos. A próxima coisa a se fazer é ter certeza de que as regulamentações do governo, inspeções e ações de execução sejam dignas de confiança, publicamente transparentes e acompanhem os avanços globais mais recentes em exploração, resposta aos acidentes e tecnologia para a limpeza de vazamentos de óleo. Isso requer do governo e da indústria um investimento significativo e sustentado de recursos e o compromisso com a segurança. Nós também precisamos executar trabalhos científicos a fim de saber a melhor forma de agir quando os vazamentos acontecerem. Será mesmo uma boa ideia usar dispersantes químicos? Se assim for, em quais condições? Existe uma nova tecnologia de limpeza que mostre garantia e que deveria ser desenvolvida?