Entre agosto e novembro de 2011, o jornalista Alex Fisberg realizou uma pesquisa sobre desenvolvimento social e entendimento da pobreza no leste africano, em países como Egito, Etiópia, Quênia, Uganda, Ruanda e Tanzânia. O resultado foi o projeto Mochila Social, que busca por financiamento coletivo a publicação de um livro (Mochila Social – Um olhas sobre desenvolvimento social e Pobreza no leste da África) com o relato da experiência.

A proposta de Alex foi conhecer diferentes iniciativas sociais (públicas, privadas, não governamentais e internacionais) e ampliar a discussão sobre a pobreza.

Mochila Social – o Livro (campanha Catarse) from Alex Fisberg on Vimeo.

Clique aqui para conhecer mais e aqui para ir para a página do Catarse e financiar o projeto. Abaixo, confira uma entrevista com Alex:

Atitude Sustentável: Em quais países conseguiu presenciar mais ações sustentáveis? Conte um pouco das ações que acha que são mais relevantes.

Alex: É dificil falar de ações sustentáveis em lugares onde a falta de infraestrutura básica é predominante. Ao mesmo tempo, já que ainda não foi feito “do jeito errado”, abre espaço para um “jeito mais sutentável”. Na favela de Kibera, em Nairobi, Quênia, a organização Sanergy ( http://saner.gy) foram criados banheiros químicos “secos”, que além de serem absolutamente funcionais e financeiramente acessíveis, ainda convertem os dejetos em energia e fertilizante para ser utilizado ou revendido pela própria comunidade. Outro exemplo interessante vem de Ruanda, na fronteira com o Burundi, onde a startup universitária e.quinox desenvolve microestações de geração de energia solar e disponibiliza baterias recarregaveis para aluguel por parte dos moradores da comunidade. Assim, áreas remotas desconectadas da rede de energia elétrica ainda assim podem usufruir de energia limpa e de baixo custo.
Há exemplos em quase todos os países, principalmente pela influência externa e a imensidão de oportunidades de desenvolvimento ainda por acontecer.

Atitude Sustentável: Nas suas pesquisas e experiências, como a sustentabilidade se relaciona ao desenvolvimento e à erradicação da pobreza?

Alex: Eu particularmente acredito numa amplitude de significados para a palavra “sustentabilidade”. Para mim, insustentável é continuarmos desenvolvendo um planeta tão desigual. Quanto mais eu pesquiso, mais eu percebo que já erradicamos a pobreza. Porém não em todos os lugares, e esse é exatamente o problema. Hoje em dia, já não é mais uma questão de insuficiência tecnológica ou incapacidade técnica, se temos ainda lugares com infraestrutura medieval e oportunidades absolutamente escassas, é uma questão de opção e direcionamento das nossas decisões. Penso que a discussão sobre sustentabilidade e desenvolvimento social e erradicação da pobreza com certeza passa pela nossa habilidade de observar, não se calar e interferir no que ainda não atende aos padrões de dignidade que nossa sociedade já tem condições de prover.

Atitude Sustentável: Nos países que visitou, como percebe a vontade de pessoas (do próprio país ou estrangeiras) em mudar a realidade?

Alex: Acredito que todo mundo tem vontade de mudar a realidade. Dificilmente você vai arrancar de alguém “não estou nem ai”, embora aconteça. Ao mesmo tempo em que observa-se um crescimento de iniciativas sociais e pessoas engajadas tentando propor novas formas de lidar com o próximo, ainda nos prendemos a uma cultura em que a atividade social é caracterizada como voluntária e paralela, dissociando o emprego “normal” do “social”. Cada vez mais crescente é o número de jovens que entendem que não precisam fazer uma coisa ou a outra. É possível dedicar-se pessoal e profissionalmente a algo que não seja necessariamente um fim em si mesmo. Trabalhar com propósito é o desafio da minha geração, e isso só vai acontecer quando nós mesmos nos conscientizarmos disso e dissermos ok.

Atitude Sustentável: Depois de ter feito a pesquisa, quais acreditam ser as melhores formas de erradicação da pobreza no Brasil?

Alex: Ouvir. Sem dúvida, o que mais venho aprendendo nesta área é que as soluções para cada caso são únicas, e normalmente já estão no próprio espaço que espera-se desenvolver. Assim, uma abordagem que priorize a observação, a escuta e o trabalho conjunto entre quem tem os meios e quem esta em uma situação de vulnerabilidade tem muito mais chances de ser efetiva. Gosto sempre de dizer que os moradores de favelas e comunidades de baixíssima renda são phD’s em desenvolvimento social e pobreza, com muito mais conhecimento que qualquer pesquisador possa vir a ter. Assim, acredito que é nossa função como interessados na mudança social extrair do contexto o que pode ser feito e fazer.