As pesquisas sobre mudanças climáticas e biodiversidade no Brasil, apresentadas nos últimos anos pela comunidade científica nacional e internacional, são incipientes. É o que mostra a “Análise de Publicações Científicas Existentes Relativas aos Impactos das Mudanças Climáticas sobre a Biodiversidade”, trabalho realizado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

Para chegar nesses dados, foi realizada uma análise cientométrica, que busca por meio de palavras-chave artigos publicados em diferentes países. Esse resultado foi filtrado para retirar artigos que não tinham relevância nos temas de interesse. Depois de uma busca em outras bases de dados e retirando repetições, foram identificados 948 artigos sobre as mudanças climáticas e a biodiversidade no mundo, publicados entre 1990 e junho de 2012. Os resumos desses artigos podem ser vistos aqui.

Do total de artigos, apenas 59 (6%) tratam especificamente dos impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade do Brasil. O primeiro foi publicado em 2001 e houve um crescimento significativo a partir de 2009.

Dessas publicações focadas no Brasil, 19 foram classificadas dentro da temática de “mudanças futuras previstas” e 11 em “mudanças atuais registradas e monitoramento”. Entre esses estudos, os temas mais abordados são: distribuição geográfica de espécies, diversidade biológica e serviços ecossistêmicos.

“A análise cientométrica, que durou cerca de um ano, teve por objetivo gerar indicadores para avaliação quantitativa do progresso científico de pesquisadores, periódicos e instituições sobre o tema em questão”, explica a diretora executiva da Fundação Grupo Boticário, Malu Nunes. Segundo ela, o diferencial desse trabalho em relação a outras análises cientométricas sobre mudanças climáticas é justamente o fato de ele ser focado nos impactos sobre a biodiversidade brasileira. Além disso, o período de tempo pesquisado, que soma 22 anos, é um dos maiores entre os estudos já realizados.

Lacunas de conhecimento
Esses números revelam, segundo a conclusão da análise cientométrica, que “a pesquisa sobre impactos de mudanças climáticas sobre a biodiversidade, embora emergente e com inequívoca tendência de rápido crescimento, ainda se encontra em estado incipiente”.

“A falta de conhecimento dificulta que ações e estratégias de adaptação às mudanças climáticas sejam eficazes”, afirma a diretora executiva da Fundação Grupo Boticário. Ela ressalta que a diversidade biológica e os serviços ambientais são essenciais para a manutenção da humanidade, mas as mudanças climáticas podem impactá-los severamente. “Por isso, entender como os dois temas estão associados é uma forte e urgente demanda da sociedade”, complementa Nunes.

No Brasil, embora exista um pouco de conhecimento em relação aos impactos das mudanças climáticas sobre as formações florestais brasileiras, sobretudo as amazônicas, os estudos desses impactos sobre elementos da biodiversidade são praticamente inexistentes. Por exemplo, é preciso saber mais sobre as mudanças prováveis na distribuição geográfica de espécies e biomas. Também faltam estudos em ambientes marinhos; apenas 5% dos artigos sobre o Brasil tratam desse ambiente.

Outro tipo de estudo apontado pelo relatório como escasso é o experimental, que pode gerar informações importantes e não apresenta tantos desafios metodológicos ou financeiros. Um exemplo disso é a manipulação das condições de temperatura, umidade ou concentração de gás carbônico, segundo o que se espera em cenários de mudanças climáticas, para observar as respostas de espécies ou comunidades a essas condições.
Uma terceira necessidade consiste em monitoramentos de longa duração, que têm o potencial de registrar respostas da biodiversidade às mudanças climáticas que já estão em andamento.

A Fundação Grupo Boticário apóia sete projetos de pesquisa sobre esses temas.