Nos últimos anos, praticamente todos os profissionais que trabalham com construção passaram a adotar cada vez mais a prática das chamadas “tecnologias verdes”. A questão é que, embora sejam muito defendidos por ambientalistas, os materiais sustentáveis podem colaborar com o alastramento de fogo e, por conta disso, também devem receber atenção sobre algo que muitas vezes é deixado de lado nos empreendimentos: os riscos de incêndio. Mas será que empreiteiros, arquitetos, proprietários de prédios e mesmo as normas fiscalizadoras já se atentaram a essa questão?

Recentemente, pesquisadores do Instituto Politécnico de Worcester, em Massachusetts, desenvolveram o relatório Safety Challenges of Green Buildings (Desafios de Segurança das Construções Verdes, em livre tradução) para o National Fire Incident Reporting System, responsável pela maior base de dados sobre incêndios nos Estados Unidos. Como o país, a exemplo do Brasil, não possui estatísticas sobre os incidentes em edifícios verdes ou elementos construtivos verdes, o estudo se baseou em indícios causais – ou seja, no risco existente em cada material.

O relatório identificou cerca de 80 componentes dos edifícios verdes, como os pisos de bambu e o sistema de isolamento por espuma aplicada em spray, e, baseado nos possíveis riscos a ocupantes, classificou seu nível de preocupação como “Moderado”, ”Médio” e “Alto”. Os sistemas vegetais nos tetos, por exemplo, podem contribuir para a carga de incêndio se não forem adequadamente hidratados, e foram classificados como sendo de risco “Moderado”. Já os painéis fotovoltaicos montados nos tetos, caso não estejam desligados, podem ter um impacto na ventilação e criar uma ameaça de eletrocussão durante o incêndio. Por conta disso, foram considerados de risco “Alto”.

Outra organização que pesquisa os materiais e as técnicas de construção verde é o Underwriters Laboratory, conhecido por ser marca registrada em diversos equipamentos de proteção, que completou um estudo de referência sobre incêndios e a construção leve em 2008. Uma de suas conclusões foi que um sistema de piso construído com vigas em formato “I” de madeira engenheirada falhou aproximadamente seis minutos após ter sido submetido a um ensaio de incêndio, enquanto um sistema de piso similar, construído em madeira maciça, durou cerca de 18 minutos.

Encontrar o equilíbrio entre os projetos de edifícios verdes e a segurança anti-incêndio se torna essencial, já que cuidar do meio ambiente deve ser uma preocupação de todos os setores da indústria e da sociedade. No entanto, cuidados como o planejamento de cada detalhe do projeto, a escolha de materiais de qualidade e a manutenção periódica de todos os sistemas são necessários para que um dano muito maior não seja causado e sustentabilidade e segurança continuem a caminhar juntas.

Normas

As preocupações com incêndios em edificações sustentáveis já existem há muito tempo nas normas de todo o mundo. O NFPA 70 – Código Elétrico Nacional – inclui requisitos sobre a instalação de sistemas solares fotovoltaicos desde a edição de 1984; o NFPA 1 – Código de Incêndio – descreve os riscos dos sistemas e as táticas de segurança para as equipes de emergência e os inspetores dos códigos; a edição 2012 do NFPA 101 – Código de Proteção da Vida – também contém uma série de provisões para a iluminação com luzes controladas por interruptores automáticos com sensores (medida utilizada para economia de energia), de forma que os ocupantes possam encontrar as saídas durante um incêndio ou outras emergências no edifício; e o NFPA 5000 – Código da Construção e Segurança das Edificações – aponta metas e objetivos sobre a eficiência energética e o ambiente desde sua primeira edição, em 2002.

Mesmo que esses riscos ainda não tenham sido plenamente analisados ou avaliados, tudo leva a crer que as mudanças nos códigos sejam assinaladas na mesma medida em que as argumentações em defesa do conceito verde cresçam. Prova disso é a nova edição do Manual de Inspeção sobre Incêndio e Proteção da Vida da NFPA, que já tem um capítulo dedicado às tendências da construção verde e da sustentabilidade e a seus riscos potenciais.
(Artigo por Ilan Pacheco)