Comissários de bordo da Delta Airlines separam o lixo dentro do avião. A falta de espaço não é desculpa para não reciclar
Quem viaja de avião de vez em quando está acostumado. Primeiro, a comissária traz o carrinho de bebidas (sucos em caixas longa vida, refrigerantes em lata, águas em garrafas PET) e serve os passageiros com copos de plástico e guardanapos. Depois, traz um lanche que inclui embalagens e talheres de plástico, papelão, mais guardanapos e, se a sede persistir, mais copos. Nos intervalos, o passageiro lê jornal e revista e vê um filme usando fones de ouvido que vêm dentro de um saco plástico. Tudo o que se consome durante um voo gera lixo. Esse lixo é reciclado?
Poucas empresas sabem dizer aonde vão parar as toneladas de lixo reciclável geradas todos os anos nos voos. Além de reduzir o acúmulo de lixo não biodegradável em aterros sanitários, a reciclagem traz economia de energia para o país, gera empregos e reduz a emissão de gases poluentes na atmosfera (leia o quadro abaixo). Mas, segundo um relatório da organização americana Green America sobre a reciclagem de lixo no setor aéreo, apenas 20% de todo o lixo gerado nos voos das companhias americanas é reciclado. No Brasil, o índice é ainda mais baixo.
No geral, o Brasil reaproveita 91,5% do alumínio e 45% do papel reciclável consumidos aqui. Mas não no setor aéreo. Se reciclassem mais, as companhias aéreas e os aeroportos poderiam reduzir suas emissões de carbono antes mesmo de conseguir adotar combustíveis mais ecológicos.
Um estudo feito pelo Conselho de Defesa dos Recursos Naturais dos Estados Unidos (NRDC), em 2006, procurou mapear a geração e o gerenciamento de resíduos no setor aéreo. A conclusão foi que metade de todos os resíduos gerados nos voos e nos grandes aeroportos poderia ser reciclada, pois é composta de latas de alumínio, papel, vidro e plástico. Nos EUA, isso significaria 500 milhões de toneladas de lixo sendo reciclados todo ano.
Algumas empresas tentam fazer sua parte. A Virgin America, uma das companhias citadas no relatório da Green America, diz reciclar o lixo de 47% de seus voos, além de usar embalagens 90% biodegradáveis, sabonete orgânico nos lavatórios e operar com aeronaves mais eficientes no gasto de combustível. A Delta Airlines declara reciclar lixo de seus voos domésticos desde 2007, com metas anuais, contando com a participação dos comissários. Segundo o que a Delta informou ao Green America, até o carpete de seus aviões é reciclado.
Em relação à reciclagem, as companhias aéreas brasileiras parecem estar nas nuvens. ÉPOCA procurou a TAM, a Gol e a Azul, as três principais companhias comerciais que atuam em solo nacional. Até agora, nenhuma implementou um programa de reciclagem do lixo dos voos. A Gol disse ter “planos em desenvolvimento para a reciclagem nos escritórios e nas aeronaves”. A Azul também diz ter um projeto, mas por enquanto só separa o lixo da sede, em Barueri. Em abril, a TAM introduziu no serviço de algumas rotas internacionais uma embalagem biodegradável à base de bagaço de cana. A empresa diz separar materiais recicláveis dos escritórios, mas ainda não mexe no lixo dos aviões.
A justificativa das companhias aéreas para não assumir a reciclagem do lixo aéreo envolve alguns enganos. Elas acreditam estar cumprindo uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quando mantêm os resíduos dos voos internacionais intocados. Também tendem a atribuir aos aeroportos a tarefa de controlar o destino de seu lixo. E usam a falta de espaço físico nas aeronaves como desculpa para não separar os materiais recicláveis antes de entregar o lixo ao aeroporto.
Nenhuma das três justificativas é convincente. A resolução da Anvisa a que as companhias se referem (RDC 56, de 2008) não impede a reciclagem do lixo dos voos internacionais. O texto da resolução estabelece apenas que o lixo comum (ou resíduos do grupo D), categoria na qual os materiais recicláveis se incluem, não deve ser misturado com lixos perigosos ou contaminantes eventualmente transportados. Uma vez separado o que é lixo perigoso do que é lixo comum, este pode ser separado em componentes recicláveis e não recicláveis. Basta que o aeroporto tenha uma área destinada para isso e acordos com empresas ou cooperativas locais de reciclagem.
Os aeroportos também não são mais responsáveis pelo lixo das companhias. Um decreto federal de 2006 institui que resíduos recicláveis gerados nas empresas e instituições públicas devem ser destinados a cooperativas de catadores. A norma nem sempre é cumprida, pois em muitos municípios não há cooperativas. A Infraero, estatal que administra 67 aeroportos no Brasil, diz que “vem se empenhando no sentido de cumprir o estabelecido”. Enquanto isso, cada aeroporto se vira como pode, e as companhias aéreas acabam se adaptando às regras locais.
Allen Hershkowitz, pesquisador do NRDC, afirma que falta organização no setor para promover a reciclagem. “Aeroportos, companhias e municípios deveriam designar equipes e formatar programas locais de reciclagem de lixo, destinando áreas e pessoal para a separação dos materiais dentro de cada aeroporto”, diz. Carlos Silva Filho, diretor executivo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), sugere outra saída: reduzir a geração de lixo, partindo para um serviço de bordo com utensílios laváveis e menos materiais descartáveis.

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